27.11.15

São Vladimiro abre novo conflito: os nostálgicos da URSS aplaudem


Artigos como este ressurgem de vez em quando nas redes sociais, desacreditando a coligação internacional na Síria e apresentando a Rússia como salvadora da humanidade naquele país concreto. 

São textos escritos, em geral, por pessoas e organizações por assim dizer órfãos da URSS e que sublimam a sua orfandade tornando-se reféns ideológicos de Putin. O atual sistema político russo, porém, o que tem de idêntico à URSS é o seu expansionismo e o uso de métodos parecidos com os do KGB para servir uma ideologia conservadora de direita, próxima do que defende hoje o Front National em França. 

É fácil mostrar o erro de leitura destes órfãos da guerra fria, mas é mais produtivo oferecer uma perceção lúcida e, portanto, alternativa do que perder tempo com balbucios trôpegos. 

A coalizão internacional atuou, sem dúvida, de forma lenta e podia já, creio, ter diminuído (se não neutralizado) a força do Daesh naqueles dois países (Iraque e Síria). As razões para uma lentidão possivelmente planificada são várias, incluindo os interesses das respetivas indústrias armamentistas - que, de resto, possuem maior acuidade na ex-URSS. Mas a redução da eficácia é também determinada pela compra de petróleo ao EI, da qual participa inclusivamente o opressivo regime dos Assad. Sim, hoje sabe-se que o próprio regime tem comprado petróleo barato ao Daesh, tanto quanto companhias petrolíferas privadas e pirataria diversa. Por esse motivo se puseram a circular notícias precisas sobre as compras de petróleo ao EI pelos Assad quando se despoletou a crise turco-russa. O Secretário de Estado dos EUA assumiu mesmo essa denúncia publicamente, conforme notícias de 14 de Novembro p.p..

Aproveitando-se da situação de ineficácia controlada, ou planeada, dois novos protagonistas entraram na guerra contra o Daesh: Turquia e Rússia. Ambos usando o mesmo alibi dos outros (ou seja: combater e derrotar o EI).

A Turquia, inicialmente relutante por causa da coligação de interesses entre os EUA e os Curdos, acabou cumprindo aparentemente os seus deveres enquanto membro da NATO e começou a bombardear 'terroristas' no Iraque e na Síria. Como os Curdos são considerados grupos terroristas há muitos anos, a Turquia bombardeou mais os Curdos do que o EI, para além de continuar a apoiar islâmicos moderados e Turcomenos.

A Rússia, quando caiu o último bastião do regime de onde os russos tiravam petróleo (v. a nossa mensagem anterior neste blogue), decidiu combater no terreno o EI, alegando que também é vítima de terrorismo (o que só descobriu nessa altura?). 

Assim que entraram viu-se que estavam lá para defender os responsáveis pelo problema sírio. Não é por parcialidade que o dito 'Ocidente' fala disso, principalmente a França e os EUA e todos os que pensam que Assad não tem condições para participar de uma solução política. A origem do problema está na reação do regime sírio às contestações pacíficas e espontâneas de muitos milhares de pessoas contra o regime opressivo dos Assad. Foi a dura e impiedosa repressão do regime sobre manifestantes pacíficos que deu o motivo aproveitado por guerrilheiros islamitas para se infiltrarem nas multidões e começarem a disparar, alegando que estavam a defender a sua vida e a sua liberdade de manifestação. 

Ignorando isso, como o EI também combate os Assad, a Rússia tinha o alibi necessário para defender o regime (a alegação de que, ao fazê-lo, fortalece uma força que também combate o Daesh) e, de passagem, bombardear os islamitas moderados, que representam uma alternativa credível ao governo sírio. A estratégia russa é clara: esvaziar o campo da oposição reduzindo uma oposição real apenas aos radicais, que todos querem combater. 

Para defender os seus interesses petrolíferos, então, os russos começaram a bombardear também os grupos armados que defendiam a população turcomena da Síria e, por isso, eram protegidos pela Turquia. Só por si, este facto constituia uma declaração de guerra. Cuja gravidade aumenta quando nos lembramos da justificação da Rússia para anexar territórios à sua volta (com as guerras e custos humanos que provoca), justamente a defesa das populações russófonas que a URSS deslocou para colonizar tais territórios. 

Assim, aqueles dois países que entraram no combate ao EI relutantes, naturalmente só para defenderem os seus interesses particulares mas criticando a 'ineficácia' do 'Ocidente' (essa velha rábula...), acabaram fazendo pior e, mais, criando um novo conflito que os opõe um ao outro. 

Sistematicamente os russos violaram o espaço aéreo turco e as queixas da Turquia foram várias, públicas e notórias, denunciando essa violação ainda antes da entrada oficial da Rússia no conflito. Quem olhe atentamente o mapa geográfico e político da zona de abate do caça russo, percebe a conveniência ou necessidade de a aviação moscovita sobrevoar aquelas cunhas de território turco junto à Síria. Mas, à maneira da URSS (impositiva e arrogante), os russos fazem-no sem terem antes obtido a concordância do governo local e desprezam totalmente as queixas turcas sobre violação do espaço aéreo - como se Ankara fosse capital de uma província, justamente, da ex-URSS. 

Além disso, a Rússia tentou condicionar Erdogan e alguns outros governos islâmicos através de laços económicos que lhe permitissem posteriormente fazer chantagem política. Como, de resto, faz com o gás e a Europa e sempre fez desde os tempos da URSS. Os russos chamaram Mahmud Abbas e Recep Tayyip Erdogan para a inauguração, com pompa adequada, de uma grande mesquita em Moscovo, largamente financiada por um oligarca do regime. Não sabiam, nessa altura, que estavam a convidar o perigoso presidente islamita, apoiante (segundo eles) do EI, não só dos 'terroristas' moderados? Nessa altura isso não importava? Os acordos comerciais recentes entre os dois países não foram promovidos e apoiados por Putin? O projeto de gasoduto não foi proposto por Vladimir Putin ao presidente turco após a inauguração da grande mesquita? Como só agora ganhou São Vladimiro essa febre de denúncia do papel da Turquia na guerra síria? 

Estamos, em resumo, com um historial bem diferente do que esses artigos tendenciosos pró-russos apregoam: a entrada da Rússia na guerra veio piorar a guerra, intensificá-la e criar mais um conflito, justamente com outro país que, tanto quanto a Rússia, só lá está para defender os seus interesses (mas, pelo menos, tem a desculpa de ser vizinho e defender, lá dentro, uma etnia muito próxima do seu povo). 

Em comum, os governos russo e turco partilham também um processo deliberado, controlado e acentuado de endurecimento dos respetivos regimes e consequente limitação de efetivas liberdades e direitos humanos. São países em forte retrocesso relativamente aos projetos de democratização que houve no seu seio. 

Em suma: países que, governados assim, onde se metem só trazem mais problemas e mais opressão do que tudo o que publicamente criticam. Não é por acaso, aliás, que as alianças russas no mundo são todas com regimes autoritários... 



3.10.15

O alibi do EI



Lembram-se da notícia abaixo? Foi publicada a 7 de Setembro. Não há muito mais que pensar para compreender a política russa na Síria. Justamente, um dos alvos de bombardeamento é junto de Homs, onde estão aqueles dois poços assinalados. É bom reler... 



Por outro lado, não é preciso também pensar muito para perceber, perante o mapa, que o EI sobreviva a uma coligação que parece reunir o mundo inteiro e a outra que reúne o que sobra. Seria possível resistir a tanto poder militar? Claro que não. 



A Turquia vai lá matar curdos; a Rússia, o Irão e o que sobra dos Assad combatem mais os islâmicos que não pertencem ao EI do que os outros; os EUA não se sabe muito bem o que andam lá a fazer (até porque nunca dizem tudo), a França fez uma espécie de bombardeamento-propaganda. Ou seja, 



o Estado Islâmico é um alibi. Daí lhe vem a força - e, claro, dos poços de petróleo. 





El Estado Islámico ya controla todo el petróleo de Siria:



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20.9.15

Burkina to return to civilian rule after coup, mediator says | Reuters



À semelhança de outros golpes recentes em toda aquela vasta zona, também no Burkina Faso os militares herdeiros do ditador (neste caso deposto nas ruas) tentaram evitar a realização de eleições efectivando um golpe cerca de três meses antes. Lembram-se do Mali, por exemplo? Foi talvez o primeiro desta nova série de golpes e o mais desastroso - justamente pela insistência dos golpistas em se manterem contra tudo e contra todos.


Os objectivos iniciais são pios e castos, ainda mais nas últimas horas, reafirmados pelo ex-braço direito de Campaoré para os sectores militar e policial, que dirigiu o golpe (Gen. Diendere). Ele diz que não quer o poder (quase todos os ditadores o disseram), mas assegurar eleições credíveis e indiscutíveis. Havia, no entanto, muitos meios de o fazer pacificamente e não é de crer numa tão profunda e rápida conversão de Diendere à democracia, depois de anos assegurando o terror militar e policial de Blaise Campaoré. 


A menção a uma desejável dissolução da Guarda Presidencial foi também aventada como autêntico motivo para o golpe. Acredito que tenha sido um dos motivos, sendo o outro evitar as eleições que viriam consagrar um novo poder pela força das urnas e condenar a prazo os principais responsáveis pelo antigo regime e a própria Guarda, que não hesitou em disparar sobre os manifestantes provocando pelo menos 10 mortos (e que continua a enfrentá-los nos subúrbios, tendo a situação acalmado no centro da cidade). 


A reacção da União Africana e dos mediadores africanos (Macky Sall e Thomas Boni Yayi), foi, porém, exemplar. Apoiada pela comunidade internacional, apertou imediatamente o cerco aos golpistas sem deixar de os ouvir e tentar cobrir razões de queixa mais 'objectivas', como sejam as que dizem respeito ao seu futuro. 


Isto mostrou, mais uma vez em tempos recentes, que a África (ou, pelo menos, aquela zona de África) tem condições de assumir o papel que lhe cabe, resolvendo os seus próprios problemas em favor da democracia e da estabilidade. Infelizmente, o mesmo rumo não tem sido seguido, ou não com a mesma clareza e determinação, em algumas outras regiões africanas, como se vê no caso do Burundi.


Significativo, no golpe do Burkina Faso, foi o facto de o primeiro-ministro (Isaac Zida) ter ficado em prisão domiciliária quando libertaram o Presidente. O tratamento diferenciado que tem sido dado ao primeiro-ministro (ex-número dois da GP), rival de Gilbert Diendere, bem como a menção apenas ao Presidente interino quando se fala no regresso à normalidade, podem indiciar uma solução que, para os golpistas não ficarem de mãos vazias, sacrificaria Zida, instalando outro primeiro-ministro. 


Apesar disso, o importante é que o golpe falhe e as declarações do chefe das forças armadas, General Pingrenoma Zagre, denunciando a violência contra o povo, parecem mostrar que o golpe já falhou. Não porque o chefe do exército se tenha posto repentinamente contra Diendere. Em princípio, ele não estaria interessado em ver a todo-poderosa Guarda Presidencial no poder. Estava, porém, calado. O que torna sintomáticas as suas declarações é que elas indicam o fim desse período de silêncio, de prudência tumular, que muitos respeitam rigorosamente após o desencadear de um golpe. Se Zagre falou assim, condenando a violência da Guarda Presidencial, é porque percebeu que o golpe falhou e não deseja ver-se conotado com o seu episódio mais execrável: a morte de civis em protesto pacífico nas ruas. 


Esta, sim, pode ser uma vitória para África e os manifestantes Burkinabes mostraram, mais uma vez, uma determinação invejável. 





Burkina to return to civilian rule after coup, mediator says | Reuters:



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28.7.15

Anti-semitismo na Europa



Um lugar onde se juntam esquerdistas nostálgicos, direitistas radicais, extremistas árabes e emigradas engajados: o anti-semitismo na Europa. Sob a capa de um falso humanismo, protetor dos inocentes de Gaza que são instrumentalizados pelo próprio Hamas, ou seja, de um humanismo de facto protetor dos interesses do Hamas, todo um povo lenta mas sistematicamente vai sendo perseguido por causa da sua realidade biológica, religiosa e cultural.



Sem dar por isso a Europa volta a permitir o racismo e o anti-semitismo que levou aos campos de concentração:




Is It Good for the Jews?: Anti-Semitism and the New Europe | World Affairs Journal:



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11.7.15

kwatcha europa kwatcha grécia



Antes de ler esta colocação, passe pelo artigo que vou comentar: http://expresso.sapo.pt/blogues/jose-soeiro/2015-07-03-A-abdicacao-da-democracia . Ele começa por uma citação de Freitas do Amaral, de onde recolho esta frase:

difícil de acreditar que em todas as reuniões de Bruxelas o resultado tenha sempre sido de 18-1.

Porquê difícil? Será possível uma ditadura oculta de Bruxelas sobre o resto da Europa, uma ditadura tal que se impõe a 18-1 e o povo precisa que lhe abram os olhos para ver isso? Uma ditadura tão terrivelmente eficaz que não falha e não se vê nem se nota? 

A esquerda europeia continua sem perceber o que se passa à sua volta, apostada nos velhos fantasmas que, sob roupagem nova, a conduzem ao ridículo. Foi a essa esquerda, ridícula e ineficaz, que o político português Freitas do Amaral aderiu há já alguns anos, coroando assim a sua carreira de pensador e jurista errante (que vem do corporativismo ao marcelismo - que também foi primeiro corporativista - à democracia cristã, ao socialismo democrático...). Fica-lhe bem, é bonitinho, nos convívios (a maioria) onde parece inteligente ser de uma esquerda burguesa, boa consumidora e com práticas que lhe desmentem as propostas políticas; fica-lhe bem, dá um retrato bonito, no qual se enquadra como foco central aquele olhar perdido, como que a flutuar em círculos vagarosos dentro de imensos e pensativos glóbulos brancos. 

A base da afirmação de Freitas do Amaral é bem um exemplo da cegueira sonolenta da velha esquerda europeia (a nova limita-se a 'mandar bocas' até ter que assumir responsabilidades políticas). Porque os democratas-cristãos, por exemplo, não haviam de estar de acordo com os outros no que diz respeito à Grécia? Será que não estão mesmo todos de acordo? Será que há mesmo uma ditadura do BCE, ou de quem o controla? Será que a Grécia não é mesmo um devedor crónico e um Estado inviável? A grande falha estratégica da Europa é não assumir isso explicitamente e ir alimentando uma situação insustentável para não correr o risco de 'perder a Grécia' (esse fatalismo será grego?). 

Quanto a Tsipras, em que toda a esquerda europeia se baseou para reafirmar os seus velhos mitos, foi mais uma casca de banana para essa esquerda e para os seus eleitores. Ele convocou um referendo para confirmar, uma vez mais, nas urnas, o que tinha sido sancionado pelo povo, poucos meses antes, numa eleição. Ou seja: para serrar serradura. Um Estado falido precisa de gastar dinheiro num referendo destes, completamente inútil para as soluções que se desenham como únicas? 

O povo confirmou e ampliou a base de apoio do governo. O que fez Tsipras? Pediu ao seu ministro-símbolo que se demitisse e foi a Bruxelas entregar de bandeja o que parecia negar, salvaguardando dois ou três aspectos que lhe permitem disfarçar a traição a si próprio. Aspectos que são significativos, simbólicos, algum até importante, mas não são esses que vão sustentar o crescimento nos próximos anos. 

Aquilo de que se queixavam todos os críticos dos planos de austeridade europeia (entre os quais me encontro, mas não por esquerdismo sonolento) Tsipras ofereceu ao BCE, a Merkel e seus economistas depois do referendo: as subidas do IVA e do IRC, diminuição da massa salarial da função pública e medidas concordantes, que irão asfixiar mais o poder de compra num mercado já débil e cronicamente incumpridor dos seus deveres. O estímulo ao crescimento estava, por exemplo, em não subir tanto os impostos sobre as vendas e apostar mais na eficiência da cobrança fiscal. E Tsipras cedeu em toda a linha. Esquerdista como é, teve vergonha de olhar para os EUA - e alguns outros países - onde a crise foi combatida sem medidas draconianas de austeridade para, justamente, não afetar (ou fazê-lo minimamente) o crescimento, a saúde do mercado, o poder de compra.

Como acreditar num político que, logo em seguida à confirmação do que pedia sem qualquer necessidade, solicita ao seu ministro mais coerente (o que não significa mais inteligente) e carismático, símbolo da sua política económica, para se demitir a pedido de alguns ministros europeus e para ele próprio ir a Bruxelas com o novo ministro entregar de bandeja o contrário do que pediu aos votantes para confirmarem? 

Acho que Tsipras, afinal, está de acordo com os parceiros europeus e percebeu que incentivar o crescimento não é o mesmo que sustentar Estados sociais insustentáveis, num país em que mais de metade da população não paga impostos. Mas, uma vez mais, percebeu 'por alto', sem aprofundar muito, sem acautelar o menos que fosse medidas que vão coartar o crescimento possível.

Ou, pior ainda, usou esse facto e esse momento para alcançar um objetivo meramente pessoal: ver-se livre de um concorrente interno que ofuscava o seu brilho e o seu capital político e se tornava incómodo, o ministro Varoufakis, que ainda muito recentemente no Guardian continuou a contra-atacar os temíveis credores com os seus habituais sofismas e paradoxos, apresentando-se cada vez mais como a verdadeira alternativa da esquerda grega - quando esta despertar da sonolência.

Alguns esquerdistas piedosos ainda acenam com os tempos de Sócrates, da sábia Grécia Antiga, para assegurarem que, por isso, tudo deve ser perdoado à Grécia atual. Que frivolidade e que sonolência! A Grécia de hoje não tem o alcance, a profundidade e a acutilância da Tragédia grega. Restou-lhe, tão somente, uma comédia populista de mau gosto. 

O articulista (José Soeiro), na lógica dessa esquerda "porque é assim", comprova o que digo sobre a inconsequência e a falta de lucidez que a caracterizam. Ele assegura-nos que 

o que está em causa não é encontrar uma solução que seja aceitável por ambas as partes [ou para ambas as partes?]. Do que se trata é de procurar substituir um Governo eleito que teve a ousadia de desafiar a atual doxa europeia.

Mas porque havia esta Europa, tão secretamente ditatorial, de "substituir um Governo" se esse governo lhe entrega de bandeja e em nome do 'não' quase tudo o que ela pede? 

Acordem, senhores, é hora de acordar. 

_____________________________________________________
Para melhor esclarecimento do leitor imediato cito um resumo das propostas gregas tirado também do Expresso em linha: 

Em termos concretos, a proposta do Governo grego prevê cortes nas pensões no valor de 0,25% a 0,5% do PIB em 2015, com aumento de 1% em 2016, aumento dos impostos das empresas de 26% para 28%, cortes na defesa de 100 milhões de euros a aplicar este ano e 200 milhões em 2016, aumento do IVA para 23% na área da restauração, mantendo-se o IVA de 13% na hotelaria, alimentos básicos, energia e água e privatização dos aeroportos, e aumento do imposto sobre o lucro das empresas (IRC) num ponto percentual (de 28% para 29%). Tsipras propõe um resgate no valor de 53,5 mil milhões de euros e a reestruturação da dívida.

De tudo isso, o que me parece fazer mais sentido é mesmo o corte nas despesas militares - e, no entanto... (até que ponto, por exemplo, a diminuição das compras para o sector, de 100% agora e 200 mais tarde - critério para todas as despesas militares - até que ponto afetará a economia local?)

Mais completa a informação-resumo do negócios online

Em baixo estão a lista de medidas e promessas do Governo de Atenas, que cede nas pensões e no IVA mas não nas despesas militares.
IVA – O Governo de Atenas aceita um plano para implementar uma reforma no IVA que represente receitas adicionais equivalentes a 1% do PIB. As autoridades helénicas cedem assim até ao valor pretendido pelos credores, dado que na última proposta de Atenas havia cedido da intenção inicial de fixar as receitas adicionais em 0,74% do PIB até aos 0,93%. Assim, os restaurantes passarão a cobrar IVA de 23%, em vez dos actuais 13%, sendo esta a taxa aplicada também aos transportes e tratamento de esgotos. Já os hotéis passam de uma taxa de 6,5% para 13% (intenção que os credores já aceitavam na proposta de 26 de Junho), sendo que nesta taxa intermédia ficarão também os alimentos básicos, energia e água (excluindo esgotos). Na taxa mínima de 6% ficam medicamentos, livros e teatro. 
O desconto de 30% nas taxas de IVA que beneficiam as ilhas será eliminado, mas de forma faseada, com as ilhas mais ricas a serem as primeiras a ficar com taxas em linha com o resto do país. As mais remotas ficam isentas, e o agravamento fiscal nas demais será acompanhado de compensações junto da população local mas que têm de ter impacto fiscal neutro. As novas taxas de IVA nas ilhas e nos hotéis serão introduzidas em Outubro, já depois de terminada a época alta do turismo.

IRC – Aumento da taxa de IRC de 26% para 28% em 2016, como era aceite pela troika. Mas Atenas admite um agravamento para 29% se a receita fiscal derrapar, circunstância que poderá levar também a um aumento das taxas de imposto sobre as famílias (de 11% para 15% para rendimentos inferiores a 12 mil euros, e de 33% para 35% para rendimentos superiores).

IRS – A proposta é vaga nas alterações no IRS. O Governo pretende introduzir mudanças nos impostos que recaem sobre os automóveis, ganhos de capital, agricultores e trabalhadores por conta própria. Ao invés dos privilégios fiscais dos armadores, que se escreve deverem ser abolidos mas sem referir quando, o documento diz que em 2017 será iniciado o processo de eliminação dos benefícios aos agricultores. Em 2016, terminarão os subsídios ao gasóleo agrícola.
Outras taxas e impostos – Introdução de taxa sobre a publicidade na televisão e anúncio de concurso público para a atribuição de licenças de televisão. Alargar o âmbito da aplicação da taxa suplementar sobre iates (com mais de 5 metros), que sobe de 10% para 13%. Aumento das taxas sobre o jogo online.
Pensões – Nesta área as novas propostas de Atenas também se aproximam das dos credores, antecipando em três anos, para 2022, a conclusão do processo de aumento da idade legal da reforma para os 67 anos. O governo grego promete iniciar desde já esse processo, legislando nesse sentido ainda neste mês, com o objectivo de poupar em 2015 o equivalente a até 0,5% do PIB em pensões, valor que sobe para 1% em 2016. De novo em linha com o exigido pela troika, prevê-se que as contribuições dos pensionistas para o sistema de saúde subam de 4% para 6% "em média", e que também as pensões complementares fiquem sujeitas a esses descontos. O Governo grego promete criar "fortes desincentivos" às reformas antecipadas.

O governo grego propõe ainda eliminar gradualmente o suplemento equivalente ao complemento solidário para idosos (conhecido por EKAS). Promete concluir esse processo em Dezembro de 2019, tal como pretendido pelos credores, mas o Executivo grego pretende iniciar essa eliminação, sobre a qual promete legislar no imediato, apenas a partir de Março do próximo ano. Já as instituições querem que o EKAS comece a ser retirado agora. O governo Syriza/ANEL pretende iniciar a eliminação gradual do EKAS nos 20% dos beneficiários do complemente que auferem pensões mais elevadas.
Defesa – Nas despesas militares, a proposta do Governo grego propõe cortes de 100 milhões de euros em 2015 e de 200 milhões em 2016. Nesta área Atenas não cede aos credores, que exigiam poupanças de 400 milhões. Os cortes de custos serão obtidos através da redução o número de efectivos na defesa e gastos com fornecedores.

Função Pública – O Executivo de Atenas prevê a criação de um quadro de mobilidade no último trimestre deste ano. A massa salarial terá de ser reduzida até 2019 (não se quantifica), tendo salários e efectivos de ser ajustados a essa meta. Com data surge a redução dos suplementos salariais: Janeiro de 2016.

Combate à corrupção - Atenas promete publicar um plano estratégico contra a corrupção até ao final do mês de Julho e alterar a legislação de declaração de rendimentos e financiamentos dos partidos políticos. Combater o contrabando de combustíveis e fraudes carrossel no IVA e desenvolver um plano para promover os pagamentos electrónicos são outras das promessas.

Reformas estruturais – O Governo grego compromete-se a implementar uma série de reformas em diversas áreas, sendo que para isso conta com a colaboração da OCDE. Estas visam sobretudo uma reforma do Estado e da sua relação com empresas públicas e fornecedores, passando por aumento dos controlos, das auditorias e da transparência. A saúde e as obras públicas são das áreas prioritárias onde o Governo grego promete combater o desperdício e os riscos de corrupção. Também na administração fiscal (um dos maiores problemas da Grécia está na forte fuga aos impostos) o Governo promete implementar reformas, incluindo criar uma agência autónoma para cobrar impostos.
Sector financeiro – Alterações nas leis de insolvência, com o objectivo de incentivar o pagamento de dívidas e medidas para levar os investidores estrangeiros a colocar dinheiro nos bancos gregos.
Privatizações - O governo de Tsipras admite avançar com todas as que estão em curso e as que estão previstas, e não mexer nos respectivos cadernos de encargo. Admitem agora também avançar com a privatização da rede eléctrica (ADMIE), como pretende a troika, mas acrescentam que poderão apresentar uma alternativa "com resultados equivalentes em termos de concorrência" até Outubro deste ano. O Governo grego também promete alienar os activos que estejam no fundo de desenvolvimento helénico (HRADF), para onde se prevê que seja transferida a participação que o governo grego ainda detém no operador de telecomunicações OTE. 

Metas orçamentais - Mantém o compromisso de apresentar excedentes orçamentais primários (receitas superiores às despesas, excluindo o serviço da dívida) equivalentes a 1%, 2%, 3% e 3,5% do PIB para os anos compreendidos entre 2015 e 2018.

13.6.15

La zone euro se prépare au scénario d'un défaut grec



A Grécia - um país economicamente inviável desde a sua criação e, principalmente, desde que pelo menos metade dos seus cidadãos deixou de pagar impostos - elegeu, numa ilusão de fuga para a frente, um jovem irresponsável e sua formação populista de esquerda para dirigir os destinos do país. Da parte dos eleitos e dos eleitores tudo não passa de uma 'picice' tipo 'o meu coiso é maior que o teu, vou-te...'


Este jovem e esta formação, largamente sustentados e iludidos por Putin e pelos 'socialismos do século XXI' que levaram já a Venezuela à falência, não tinham na verdade qualquer solução para a crise grega, nem estavam tecnicamente preparados para as negociações com os credores.


Agora não sabem como 'descalçar a bota'. Não têm saída, porém: ou dizem aos que os elegeram que afinal estavam enganados e o governo anterior - apesar da falta de ousadia - estava certo; ou saem da zona euro e se entregam a credores bem mais objectivos, que os irão explorar como não quiseram nunca: Rússia, China, sobretudo. Só que a Grécia não tem muito para explorar...


Com a guerra na Síria, o Líbano intermitentemente inviável e a Grécia neste estado, não tardará a fazer mais sentido que nunca o sonho dos 'jovens turcos' e de Erdogan: refazer o império do Sultão.



La zone euro se prépare au scénario d'un défaut grec:



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29.4.15

Bali terrorist Muhammad Cholili freed on parole as 18-year jail sentence halved | dailytelegraph.com.au



Matar traficantes, alguns (algumas) dos(das) quais insignifcantes e soltar um terrorista que não se arrependeu das mortes inocentes que ajudou a causar. O que é que Widodo quer mostrar com isso?



Bali terrorist Muhammad Cholili freed on parole as 18-year jail sentence halved | dailytelegraph.com.au:



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22.4.15

Naufrages de migrants : qui est responsable ?



Sem comentários. Basta-me o que fiz ontem.



Naufrages de migrants : qui est responsable ?:



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Naufrages de migrants : qui est responsable ?



Sem comentários. Basta-me o que fiz ontem.



Naufrages de migrants : qui est responsable ?:



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Taiwan - RPC



É verdade que, gradualmente e apesar da doutrina oficial, foram-se constituindo dois países. Durante quanto tempo a República de Taiwan conseguirá resistir a uma China em lento e seletivo retorno a práticas musculadas do maoísmo? O exemplo de Hong Kong assusta, sendo que a programação eleitoral hoje (ou ontem) divulgada confirma que os chineses não estão dispostos a admitir ilhas democráticas sob a sua alçada. Leia-se:



Yesterday’s People: Taiwan Votes Against Beijing | World Affairs Journal:



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20.4.15

Mediterrâneo das mortes


A sucessão de naufrágios e de mortes no Mediterrâneo demonstra bem o cinismo com que lidamos com problemas humanos gravíssimos e de que nos devíamos envergonhar. 

Não aponto a direção habitual: o 'cinismo ocidental'. Isso é uma história para adormecer o verdadeiro cinismo, o das pessoas que assim alienam a consciência como quem tomasse um calmante. Há, da parte dos políticos, dos comentaristas e das pessoas comuns (estas avalio pelas redes sociais) uma atitude que visa, principalmente, não falar no que está em causa. 

O que está em causa? 

1) Para a Europa, evitar uma invasão silenciosa que irá demolir rapidamente o já precário bem-estar da sua população actual. Por isso a Europa tem que se defender. 

2) Para os países do Sul do Mediterrâneo o que interessa é atirar o problema para o Norte e livrarem-se da incómoda presença desses emigrantes no seu território, estímulo da instabilidade. Por isso eles têm que deixar passar os emigrantes.

3) Para os países de onde vieram os emigrantes o que interessa é atirar o problema da fome, da miséria, do sub-desenvolvimento e das vítimas da guerra, o mais possível, para longe das suas fronteiras. Por isso os deixam partir tão facilmente. 

Talvez este conjunto de interesses explique algumas coisas. Por exemplo: há medidas simples que não são tomadas nem referidas, exceto por um ou outro europeu e timidamente. Uma delas seria a patrulha conjunta do Mediterrâneo, com patrulhas mistas de europeus e norte-africanos, enfim, de todos os países que possuem costa mediterrânica (não conheço bem propostas neste sentido, pode haver já trabalho feito e gostaria, nesse caso, de saber porque não se concretiza imediatamente). Outra, complementar, seria  a patrulha mista das fronteiras a sul do Saara e com países em guerra como a Síria e o Iraque. Porque não se fazem?

Se estivéssemos verdadeiramente preocupados com o problema, lutávamos por isso. Alguém dirá: mas patrulhar não resolve a causa. Claro que não, resolve a consequência: naufrágios, mortos, prejuízos cada vez mais avultados para todos os lados. E o que resolve o problema na sua origem?

Uma boa governação, um entendimento democrático e democratizante para que a força do voto livre substitua a força das armas livres, um desenvolvimento harmonioso e, portanto, mais uma vez, uma governação eficaz. 

É nesse sentido que os governos dos países de origem dos atuais emigrantes clandestinos devem ser substituídos. Não vale a pena os europeus meterem a cabeça debaixo do chão e os velhos esquerdistas apelarem à velha consciência de culpa, fruto de um cristianismo que renegam. Não vale a pena virem com os argumentos infantis de não-interferência na soberania alheia. Não é preciso invadir países, é preciso cobrar às suas elites os problemas que elas criaram. Para isso, é preciso que os países democráticos se livrem das dependências dos ditadores em termos de matérias-primas, acelerando por exemplo as pesquisas sobre energias alternativas, autossustentabilidade e desenvolvimento solidário. 

Por isso me parece, contrariamente ao que é muito comum afirmar-se, que os EUA têm, geralmente, uma atitude mais racional exigindo às elites locais o que lhes deve ser exigido pela comunidade internacional. Porque, se elas falham, é a mesma comunidade internacional que sofre as consequências e à mesma sem poder resolver o problema na sua origem. Em última análise, o resto da Humanidade vai depender também da substituição destas elites ou da sua reconversão democrática e progressista (no sentido único da palavra: conducente ao progresso em todos os níveis). 

Mas a Humanidade encontra-se regularmente na ONU. Isso é que me torna pessimista, porque ali ninguém parece querer chamar os problemas pelos nomes e, portanto, fica um aerópago de vaidades, um vazio de resoluções eficazes, dispendioso, uma falsificação do encontro democrático entre todos os países do mundo. A única alternativa, nesse caso, é mesmo apoiar o combate contra as elites corruptas e incompetentes. 

Sublinho incompetentes. Porque a incompetência é mais grave que a corrupção. Não vive dela, a corrupção é que vive da falta de eficácia dos governos. 

O problema no combate a essas elites é que ele tem sido mal dirigido e mal programado. Era preciso, primeiro, concertar as forças internas e dar-lhes só depois todo o apoio, expurgando desde logo todos os elementos duvidosos. Avançando sem esse pré-requisito, a 'comunidade internacional' e o 'ocidente' vão cavando abismos maiores por onde passam. Portanto, não vale a pena avançar para o abismo. 

Neste ponto igualmente, o que está errado (no apoio à reconversão ou substituição dessas elites) é a incompetência com que ele se realiza e não, propriamente, o princípio de apoio a um povo oprimido. 

E a competência começa por chamarmos cada coisa pelo seu nome. 



13.4.15

Putin humanitário vende mísseis ao Irão

Putin e Lavrov descobriram-se de repente muito preocupados com a situação no Iémen. Quando os Houtis tomaram à força o poder e ocuparam zonas onde são minoritários ou quase não existem, a Rússia estava calada. Quando os Houtis desceram para Aden e começaram a conquistar a cidade, onde não são maioria nem nada que se pareça, bombardeando, alijando mais uma vez o Presidente legal da sua residência, obrigando-o a fugir e instaurando na prática um novo poder sem o consentimento das populações, a Rússia calou-se. Não se preocupou com as vítimas dessas conquistas e invasões, nem com os injustiçados, nem com a situação humanitária de ninguém.

De repente vem Lavrov, pondo aquele ar de senhor muito sério que põe cada vez que vai mentir com todos os dentes, entre urso ameaçador e ditador cínico, e desata aos pedidos de cessar-fogo, preocupado com a crise humanitária, sugerindo diálogos.

O que se passou para essa súbita preocupação se manifestar com tanta veemência? duas coisas:

Primeira: a Arábia Saudita finalmente reagiu e começou a reforçar o armamento dos sunitas e do poder legal, ao mesmo tempo em que bombardeava posições xiitas. A preocupação era repor o poder internacionalmente reconhecido e que representa a maioria da população (os houtis não são maioria nem são todos xiitas fanáticos).

Segunda: a Rússia fez um grande negócio de armas com o Irão, aproveitando o desanuviamento trazido pelo pseudo-acordo (na verdade uma intenção de acordo) sobre o nuclear. Leiam a notícia:



Russia Lifts Ban on Advanced Anti-Aircraft Missiles to Iran | Foreign Policy:



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29.3.15

As guerras escondidas do Iémen


Uma análise bem fundamentada do processo conducente à actual situação iemenita e que explica as posições tomadas por cada parte e cada protagonista, num intrincado arrolamento de confessionalismo e política, mais uma vez. Os fundamentalismos islâmicos continuaram, por seu turno, também aqui, a sua aposta na desestabilização a qualquer custo e mesmo que isso, a prazo, se verta contra eles.



Les guerres cachées du Yémen, par Pierre Bernin (Le Monde diplomatique, octobre 2009):



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25.3.15

Mind Games: Alexander Dugin and Russia’s War of Ideas | World Affairs Journal

Mais um intelectual de serviço. Prolífico, sem dúvida.



Apenas um comentário: não se trata aqui de legitimar uma forma de nacionalismo mas uma ambição imperial de retorno à velha Rússia dominando a Eurásia.



Mind Games: Alexander Dugin and Russia’s War of Ideas | World Affairs Journal:



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11.2.15

Charlie Haram


Quando os atentados de Paris vieram mostrar ao mundo que a Europa condescente e relaxada com a sua identidade democrática colocava em risco a própria liberdade e segurança, 

muitos 'blogueiros' e cronistas de esquerda se apressaram a distrair as nossas atenções, logo no dia seguinte. Uma das distracções consistia em nos lembrarem que o Boko Haram matava mais gente na Nigéria, raptando lá crianças, mulheres e arrasando aldeias inteiras.

Estranho: de repente, pessoas que nunca se tinham preocupado com isso mostraram-se extremamente revoltadas com o Boko Haram. Viciadas como são na acusação à Europa, aos EUA e ao capitalismo por todos os males, imediatamente reclamaram o que antes costumavam criticar: uma intervenção europeia em África para combater o Boko Haram e descurar a vigilância que a França, finalmente, parecia querer fazer a sério dentro do seu próprio país. 

Pareceu-me e parece-me que África tem condições para resolver, por si, o assunto. Pareceu-me também muito irresponsável a campanha eleitoral nigeriana, secundarizando um assunto de importância fundamental para toda a região. 

A opinião pública global devia preocupar-se, claro, com o Boko Haram. Mas porque é que, em se tratando de África, têm que falar logo numa intervenção europeia, sobretudo os sectores mais à esquerda, mais anti-'imperialistas'? 

A postura a tomar é bem outra: é exigirmos todos, africanos e não-africanos, que os países africanos da região resolvam os seus problemas. E, efectivamente, é o que estão a fazer. Só podemos lamentar uma resposta tardia, mas não duvidamos de que esses países têm condições para resolver o problema por si, com a ajuda normal, não-intrusiva, normal num mundo globalizado e a simpatia da comunidade internacional. 

Parece-me que a África ao sul do Saara, neste e em alguns outros casos, começa finalmente a responder por si própria. É de saudar. 


Problemas gregos


A recente postura da Grécia tem confundido muitos analistas. Leva-os, por um lado, a repetir lugares-comuns (a Grécia não sairá da Europa, Tsipras é no fundo um social-democrata), por outro a confundir o problema económico da Grécia e a política de austeridade europeia. 

Ambos os problemas se encontram no caso grego, mas são diferentes. É preferível comparar a política de austeridade europeia com a dos EUA. Fazendo-o percebe-se razoavelmente quais os erros tácticos dessa política de austeridade. Os erros tácticos em economia têm consequências sociais que os transformam em perigos políticos graves. Em certa medida, um desses perigos era a vitória de Tsipras na Grécia.

Outro problema é o da própria Grécia como Estado inviável. Inviável porque pretende juntar uma política de paternalismo social com a aceitação perdulária de 45% dos contribuintes em falta com os seus impostos, mais uma grande percentagem de empresas a fazerem o mesmo. 

O urso do Norte (a velha Rússia, com o tsar Putin à frente, aliado à Igreja Ortodoxa e ao complexo industrial-militar) espreita e vai estendendo as garras, tornando a Grécia cada vez mais dependente da Rússia e usando-a para criar mais divisões na política internacional da UE. 

Mas o problema essencial do Estado grego não se resolve. A solução talvez mais consentânea é a de um Estado mínimo e minimalista, não-despesista e que solte as forças económicas protegendo as pequenas e médias empresas face às grandes. Isso porque o Turismo e algumas empresas (em regra de parco significado isoladamente) de alter-economia formam uma coluna importante dessa economia, para gerar empregos e sustentar um crescimento moderado, plausível, discreto mas sólido. A diversificação do escoamento dos produtos agrícolas - em grande parte destinado à Rússia - é outra medida fundamental. 

Tsipras, em vez de colocar aí a tónica central do seu discurso, atira barro à parede, tenta confundir velhos macacos e ensinar a missa ao padre, grita para afastar o medo mas também para esconder que não tem, de facto, uma alternativa credível, conjuntural e que vá para além de trocar uma 'opressão' (a europeia) por outra bem menos avançada, bem menos interessante e bem menos livre (a russa e, quem sabe, mais tarde a chinesa). Não tendo grande expressão já a ajuda da Venezuela e outros latino-americanos (para além da que venha do tráfico de drogas, usando a Grécia para entrar livremente na Europa), limita as políticas de Tsipras a isto. 

Ironicamente, nem à Rússia, nem à América-latina, nem aos traficantes de droga interessa a saída da Grécia da União Europeia. Porque é precisamente a sua presença lá que pode trazer vantagens a uma aliança com os gregos. 

Por isso é que os europeus podem falar forte. Lamentavelmente, se chefiados por Merkel, falarão forte para insistirem num erro. E Merkel, aterrorizada pela proximidade da Ucrânia, acabará cedendo aos russos até não poder mais, ou seja: até que os aliados a impeçam de o fazer.


Um artigo razoável e equilibrado sobre as relações entre Grécia, Tsipras e Rússia pode ser consultado aqui