2.6.17

More professionalism, less populism: How voting makes us stupid, and what to do about it


O artigo em hiperligação coloca, lúcida e corajosamente, o dedo numa das feridas mortais da democracia tal como vem sendo praticada, ou seja, por um sistema partidário, de quando em quando legitimado em eleições diretas e, ou, referendos.

A colocação do problema é certeira, sobretudo quanto à segunda parte do título acima. Já a solução não sei se será. 

O recurso aos «corpos intermédios» como conceito operatório de base para repensar a representatividade organicamente e profissionalmente não é novo. Antes surgiu entre correntes, geralmente à direita, que denunciaram já, com todo o acerto, a democracia partidária. Porém, quer a Ocidente quer, por exemplo, no Paquistão de Zia Ul-Haq, as tentativas de aplicar essas propostas passavam por um retorno a tradições próprias de um tempo superado irremediavelmente (como hoje se vê por fenómenos como os do islamismo fundamentalista) e pela instalação de uma Ditadura, assim, escrita com maiúscula.

Os autores deste ensaio procuraram caminhos alternativos para definir os «corpos intermédios» e explicam-nos bem porque é necessário fazê-lo hoje. Mas a recuperação dos partidos como corpos intermédios passa por cima do facto de eles próprios e o seu habitat implicarem na proliferação do nepotismo, da falsificação dos programas eleitorais após as eleições, no incumprimento e na corrupção por sistema. Foi o sistema partidário quem gerou uma oligarquia de políticos profissionais e empresários que, em nome da liberdade, das mais variadas maneiras abafa a liberdade na prática. 

Parece-me que hoje avançámos o suficiente para levar em conta ONG's, associações da sociedade civil organizadas autonomamente (fora das esferas dos partidos e das igrejas), e ainda os velhos sindicatos e associações de classe. Todos esses órgãos constituem «corpos intermédios» no sentido próprio da palavra e são profundamente políticos sem terem de estar presos ao sistema partidário. Alguns deles estão comprometidos, outros porém continuam a escapar à corrupção sistemática. Os partidos, justamente, falharam enquanto corpos intermédios, enquanto clubes de pensamento político e intérpretes do voto.

Sem dúvida, o artigo não deixa de ser interessante, apesar de ignorar que os partidos fazem parte do mal e não da cura, se é que existe cura para a imoralidade política. Além da constatação lúcida e corajosa de como o voto direto nos torna imbecis a todos, o ensaio conduz-nos à percepção, a meu ver correta, de um necessário equilíbrio entre a auscultação pelo voto - em plena liberdade, ou não se ausculta nada - e a posição do profissional, mais atento, avisado e tendo já acompanhado conscientemente experiências políticas diversas. O sistema híbrido que defende, neste aspeto, me parece uma boa direção para a superação dos dilemas das democracias atuais. 

Vale a pena ler o texto na íntegra, podendo ser baixado neste endereço em 'pdf'. Lê-lo me parece um bom ponto de partida para pensarmos a desastrosa presidência de Trump nos EUA, bem como a ascensão dos novos ditadores um pouco por todo o lado. Ou seja: para pensarmos em métodos, caminhos, que organizem democratica e saudavelmente as sociedades evitando populismos, arrivismos, aventureirismos - a que as populações se dão por não se sentirem nem ouvidas nem representadas ...num sistema representativo! 

Mas podemos começar pelo resumo:

More professionalism, less populism: How voting makes us stupid, and what to do about it | Brookings Institution:



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