21.12.16

Os novos escroques


O que resta do 'socialismo do século XXI' - uma fórmula atrasada para aplicação de totalitarismos de esquerda na América Latina - revela cada vez mais claramente a sua faceta antidemocrática: na Bolívia, depois de um referendo rejeitando, na prática, a recandidatura de Evo Morales, o ditador reúne o seu partido e apresenta-se como candidato oficial à reeleição; na Venezuela, que o socialismo totalitário pôs completamente de rastos ainda no tempo de Hugo Chávez, um referendo convocado constitucionalmente, após eleições perdidas pelo presidente, foi simplesmente inviabilizado por Maduro para eternizar o seu poder à frente do Estado.

Os novos ditadores - que a imprensa anglófona chama, por eufemismo, 'personalistas' e que não passam de populistas legitimando-se por um nacionalismo folclórico - dão-se na prática por aliados estratégicos do 'socialismo do século XXI', bem como de muitas ditaduras islâmicas. A China, que não quer ser apenas o velho tigre de papel, ensinou-lhes a lição há muito (aliás, denunciada por Viriato da Cruz ainda antes da independência de Angola): não importa quem manda, importa quanto custa e quanto se ganha. Estes países, quase todos derivando de regimes aparentemente socialistas e realmente de partido único, viram seus heróis combaterem o imperialismo dos EUA denunciando justamente essa falta de princípios morais e de coerência democrática na política. O melhor exemplo disso hoje é o velho Mugabe, candidatando-se, mais uma vez, à própria sucessão com 92 anos de idade e um país esfarrapado, em total descrédito e sem qualquer rumo.

Perante os factos, a defesa do 'socialismo do século XXI', ou de qualquer outro anticapitalismo revolucionário, hoje, é mero anacronismo, cegueira, teimosia serôdia. Mas é prejudicial. Abençoar os bombardeamentos sobre Alepo porque 'os outros' também bombardeam, como dantes se abençoavam os regimes de partido único só porque nos iriam libertar do 'capitalismo' que se aliava a ditaduras, contribui para a alienação geral das consciências democráticas.

É certo que Mobutu foi apoiado pelos EUA, como tantos outros. E, porém, quem dizia combater Mobutu, os EUA, o imperialismo, o neocolonialismo, etc., pôs lá um tal de Kabila, que foi buscar à Tanzânia entre copos de uísque e nos vendeu o herói dizendo que ele tinha conhecido Che Guevara, que o seguia e até que Che Guevara o achava o único zairense capaz de levar avante a verdadeira revolução. Como se Che Guevara, que executava e mandava executar sumariamente as suas vítimas, fosse exemplo de virtude política...

É certo que Mobutu foi um bandido: espoliou o seu povo, que morria de fome enquanto ele tinha fama de comer em talheres de ouro pronto a zarpar para qualquer lado. É certo que Mobutu, ao morrer, deixou um país inviável às mãos dos abutres. E, porém, vejam: o herói pretensamente guevarista morreu quando começava a fazer asneiras umas sobre as outras; o filho herdou-lhe o trono como se alguém tivesse investido a família como família monárquica; e agora o filho, dono da maioria das empresas significativas do Zaire, nem se preocupa com a lacuna constitucional, a ausência de Presidente e mandato legítimo segundo a Constituição vigente que ele próprio aprovou, não se preocupa com nada. Simplesmente nos diz: eu controlo, de facto, a situação, portanto não preciso nem de constituições. De resto, uma invenção 'ocidental', 'burguesa' e 'capitalista'...

Como percebeu desde cedo R. Aron (liberal de ascendência judaica), o momento que vivemos até há pouco tempo foi o de um grande intervalo democrático; as constantes ameaças à liberdade no mundo, associadas à fraqueza e à cegueira de muitos intelectuais 'ocidentais', iriam conduzir-nos a um estágio bem mais feio, realmente pós-liberal, pós-capitalista e pós-imperialista: o das nações governadas por títeres descarados, cuja principal arma é a do martelo ou da foice ou da catana sobre as cabeças das ainda sobreviventes democracias.


Sobre o Congo (com 'c' ou 'k' dá no mesmo) leia-se por exemplo a mais recente notícia da Reuters.

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