28.9.14

14.9.14

Putin e a extrema-direita europeia



A propaganda russa manipula bem o saudosismo pela antiga URSS. Muito anti-imperialistas dos anos 60 a 80 vibram com entusiasmo quando a Rússia de Putin desfere mais um golpe na liberdade e na vontade países independentes e que o são, de facto, porque a URSS acabou. 



Ao mesmo tempo a propaganda russa encobre o mais que pode a instalação e consolidação de um disfarçado regime de partido único. A rejeição de candidatos 'perigosos' tem aumentado, bem como a sua prisão, sobretudo se denunciam o imperialismo russo. A velha esquerda internacionalista e revivalista, habituada que estava a colaborar nisso, de bom grado contribui sem pedir nada em troca. 



Mas o regime de Putin não tem nada de esquerda, nem de marxismo. É uma espécie de salazarismo russo, com a diferença do acentuado militarismo e expansionismo. 



O expansionismo russo toma por base, como o hitleriano, as comunidades russas em países vizinhos. Com essa desculpa Hitler invadiu tudo o que podia até o Ocidente entender, por fim, que não havia paz possível. Putin faz o mesmo em nome dos russófonos. 



Uma pergunta fundamental para compreendermos a sua política é: quem são estes russófonos e como foram para ali? 



A propaganda soviética legitimava o expansionismo russo afirmando que precisava de criar unidade popular entre os vários componentes da União. Porém, em nome disso, o que fez? Tornou em minorias, ou maiorias escassas, os povos de uma dada região transferindo-os forçadamente para outros países da ex-URSS. Esses povos tiveram que integrar-se nas novas comunidades, tiveram que aprender russo e, muitos deles, tiveram simplesmente de desintegrar-se para sobreviverem nos novos países, assimilando a cultura e a língua russas e tornando-se, portanto, mais um factor favorável ao expansionismo russo. 



Os russófonos, porém, de que falo não são esses, são os da outra face da moeda. Tal como esses tinham que abandonar a terra natal sua e dos seus antepassados, outros vinham ocupar os seus lugares. Eram russos, geralmente operários, com pouca educação, com salários baixos mas desfrutando de regalias e facilidades práticas por virem da Rússia, centro do poder da ex-URSS. 



A maioria esmagadora dessas comunidades funcionou e funciona como colónias: não adquirem as línguas locais, não se integram nas comunidades locais e só entram na vida política local para defender a aproximação maior ainda com a Rússia. 



A intervenção putinesca em favor destas comunidades é, na verdade, a manipulação do seu saudosismo a favor do novo expansionismo russo. A sua actuação visa consolidar uma política meramente colonial, em que uma comunidade exógena se impões às locais ou tenta fazê-lo, sem qualquer respeito pelas suas especificidades. 



A velha esquerda dos anos 60 a 80 e seus resquícios actuais, ainda raivosa pela vitória do capitalismo sobre o capitalismo de Estado, coloca-se afinal na defesa do último colonialismo direto do mundo. 



Para quem vê de fora, a incongruência é clara. Tanto quanto a perceção de que não é geralmente esse o seu lugar. 



Já o mesmo não se passa com a extrema-direita europeia. Essa extrema-direita é extremamente parecida com o putinismo: põe um verniz de democracia sobre as garras mas, na verdade, procura ir instalando - aparentemente por mecanismos democráticos legais - ou protegendo ou divulgando políticas ditatoriais. 



O combate à emigração passa por isso. Para os operários franceses, ex-PCF ou seus filhos, é o combate novo pelo emprego. Para os dirigentes europeus é a manipulação do desemprego para expulsar todos os que não se integrem numa visão fundamentalista dos seus países. É o mesmo que Putin promove com a Igreja Ortodoxa por exemplo. Os estrangeiros têm que se integrar e assimilar totalmente na cultura das nações a que chegam.  



Se, por um lado, parece compreensível que os estrangeiros sejam obrigados a respeitar as culturas nacionais dos países a que chegam, isso não implica necessariamente assimilação, abandono das suas culturas de origem, significa apenas que, em havendo choques culturais, a cultura que domina legalmente é a dos países receptores. Portanto significa que os grupos de emigrantes não podem exercer pressões no sentido de colonizarem os países que recebem com a imposição do seu fundamentalismo. Ou seja: é uma rejeição da transformação do emigrante em colono. 



Mas a extrema-direita não quer isso. Ela quer, simplesmente, o apagamento dos traços culturais próprios de estrangeiros que vivam no país. E que os seus nacionais, por seu turno, não tenham que sofrer o mesmo quando vivem fora da sua pátria. Por isso a extrema-direita europeia se dá bem com o fundamentalismo nos outros países. A ideia é a de que, se "os vossos pais lutaram pela independência", agora curtam-na, fiquem lá na terra deles a viver à vossa maneira e nós ficamos na Europa a viver à nossa maneira. É uma rejeição total e egoísta do processo cultural multímodo gerado pela globalização. Nesse aspecto a mesma que orienta Bin-Laden e... Putin. 



O dirigente russo conhece tudo isto muito bem. Daí que ele namore, não a velha esquerda europeia, mas a nova extrema-direita. Estes nacionalismos, tendencialmente imperialistas e, portanto, contraditórios, é que antes e até hoje conduzem a guerras, em geral desastrosas porque as guerras raramente se fazem para a felicidade dos povos. 



De onde que não me surpreendam as informações que servem de base à análise para que remete a hiperligação. A velha esquerda e mesmo os velhos liberais é que deviam tomar isso mais a sério:





Strange Bedfellows: Putin and Europe’s Far Right | World Affairs Journal:







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8.9.14

russismos


Há mulheres um bocado menos atrativas que acham que, forçando laços, prendem os pássaros. Putin faz o mesmo: não tendo a Rússia tão poderosa e atrativa como os EUA, vai apanhando pequenas falhas de aliados ocidentais psra tentar fazê-los reféns. É o que faz com o gás. Mas assim põe-se na posição de parceira forçada: logo que surja algo de novo os pássaros fogem para outros braços e a Rússia fica orgulhosamente só. Guerreando feio.

http://www.worldaffairsjournal.org/article/yes-russia-matters-putin’s-guerrilla-strategy

6.9.14

cinismo internacional


Realmente, era uma obrigação das grandes potências, ao menos, preocuparem-se com o que se passa na Líbia e no Iraque. 

Digo das grandes potências e não do Ocidente. Porque a Rússia também é uma grande potência militar, faz alarde disso, criticou intervenções americanas que, segundo os saudosistas da propaganda soviética remanejada por Putin, estariam na base das situações actuais. No entanto, não propôs nenhuma intervenção para minorar o sofrimento desses povos e países e assim corrigir os erros do 'Ocidente'. Pelo contrário, continua com a sua política de agressão aos vizinhos, protegendo colónias de russos que, após anos de vida em países vizinhos nem sequer se esforçaram por aprender a língua deles e respeitar a cultura desses povos que os acolheram. Nem deixaram de se considerar superiores quando não têm nenhuma razão para isso. 

A verdade é que a Rússia e a China só se lembram do sofrimento dos outros quando é para criticar os EUA  e os aliados 'ocidentais'. Tal como estes só se lembram do sofrimento dos povos quando lhes dá jeito. 

Os povos não têm pais. Ou se seguram ou estão perdidos.