21.7.22

Situação política ridícula


O ignorante escarnece do parvo, enquanto o pobre coça a cabeça.

19.5.22

Pensamento único e pensamento livre na política mundial

O panorama da política mundial hoje não nos deve surpreender. É verdade que houve uma pausa de anos até que novas forças políticas concentracionárias emergissem e tomassem o poder em alguns países. Infelizmente, assistimos a uma normalidade. Infelizmente, ela não deixa de ser oportuna, num único sentido: os anos de paz amolecem, por isso uma guerra nos torna mais vigilantes. É, porém, desnecessário, pois os países livres têm na liberdade a revigoração das suas forças e, tarde ou cedo, a moleza havia de ser sobressaltada sem guerras. É, no entanto, uma verdade histórica a da recorrência das guerras. 

Os seres humanos guiam-se por padrões e, por isso mesmo, precisam constantemente de experimentar os padrões, para ver até que ponto eles são funcionais. As discussões públicas e livres acerca de posturas, decisão política ou partidária, estratégias internas e externas, experimentam os padrões que regem as sociedades. Porém, podem fazer perigar um poder autoritário, ou que se aferre a normativos ultrapassados, como é o caso de Putin e de Bolsonaro e foi o de Trump. Quando os padrões são postos em causa e o governante já tem todo o seu poder alicerçado neles, então precisa reprimir qualquer discussão. Se a ditadura avança, os que defendem a liberdade recuam para países livres ou começa a guerra. Porém, mesmo que os oposicionistas sejam pacifistas e só recuem para países livres ou atuem com discrição no interior das ditaduras, a guerra tem de começar, para que a ditadura elimine a oposição seja em que país for. Então começa mesmo a guerra inter-nacional, como se fez a nacional: a princípio surda e indireta (quando o ditador tem pouca força ainda), logo ameaçadora, logo direta, armada, esmagadora. Se as democracias agredidas estiverem preparadas militarmente, reagem com vigor e os ditadores são obrigados a recuar. É certo que, se não forem completamente destruídos, apenas fazem recuos estratégicos, como Erdogan para não sair da OTAN (veremos onde isso vai dar desta vez). Estamos neste ponto: uns fazem recuos estratégicos, outro (Putin) arrasa cidades atrás de cidades ("não ficará pedra sobre pedra") para dizer que não recuou. 

O pensamento que se agarra a um padrão e o define como eterno, imutável (por isso indiscutível), é o pensamento único. O pensamento que se põe à prova é o pensamento livre, que opera e se desenvolve pela diversificação e pela experimentação. 

Ao que assistimos hoje, novamente, é à luta entre as democracias e os protagonistas políticos de um pensamento único, autoritário (seja ele qual for), em combate mortal e contínuo contra a possibilidade de diversificação. Se os seguimos, os nossos padrões estarão controlados à partida e, não sendo passíveis de experimentação, nos fazem correr os riscos das sociedades caducas. As ditaduras recentes, ainda vigorosas, não percebem que assinaram o seu atestado de óbito ao se constituírem em ditaduras e agredirem vizinhos. Houve regimes autoritários 'eternos' (o dos faraós, por exemplo), mas eles sofriam revoluções e mudanças internas constantemente e, por vezes, elas conduziam a guerras civis - o que diz tudo. 

Havendo lucidez, sabemos por onde vamos. Havendo coragem, vamos mesmo. 


12.5.22

São os vizinhos da Rússia que pedem para entrar na OTAN

É uma lembrança pertinente, porque muitos tentam passar a versão (russa) de que há um plano expansionista, ofensivo, da NATO, para chegar às fronteiras ocidentais das Rússia por todos os lados. Putin usou essa distorção para (também por aí) justificar a invasão e ocupação da Ucrânia - que ainda não conseguiu efetivar, felizmente, no que diz respeito à ocupação.

Note-se, de passagem, que a colonização de toda a Ucrânia seria fundamental para abarcar campos de cereais, espaços estratégicos, controlo dos mares internos, riquezas de solo e de subsolo, como também para deixar de pagar a taxa pela passagem do gás. O plano de Putin para ocupar a Ucrânia vem de longe, foi meticulosamente preparado e sistematicamente tentado: começou com a tentativa de colocar e manter na chefia do país um corrupto pró-russo, contra o qual a maioria da população se revoltou. Continuou com a ocupação de territórios ucranianos onde se fala russo (numa operação semelhante - mas mais cautelosa - à dos sudetos 'alemães' com Hitler, que os levava até à Morávia). Depois a ocupação da Crimeia. Agora a ocupação de todo o sul do país para ligar o Donbass à Transnistria. Por fim, e já destruído quase todo o país, era só fechar a tenaz... 

Por força, talvez, da velocidade e voracidade capitalista, sobretudo na imprensa, a memória coletiva ocidental e global encurta e certas falácias passam sem que ninguém pense muito nelas. Quando a URSS acabou, vários países integrantes da NATO discutiram se ainda valia a pena manter a Organização, visto que se extinguira o inimigo comum. Nunca se pôs na mesa a ideia de cercar a Rússia e dar cabo dela, o inimigo estava extinto: era o regime do PCUS. Acabou prevalecendo a ideia de que a organização podia ser reformulada e readaptada aos novos tempos com vantagens para todos. 

Mas vários países da antiga esfera soviética, mantendo viva a memória histórica da atuação da Rússia e da URSS, quiseram passar a fazer parte da Organização, bem como da União Europeia. Quer a NATO, quer a UE, foram sempre cautelosas e lentas a avaliar os pedidos de integração. Sabiam que não estavam preparadas para uma entrada, de rompante, desses vários países e, também, sabiam que a Rússia tentaria abafar ou neutralizar os países vizinhos sob a desculpa de que a NATO - inimiga da URSS e não da Rússia - era uma organização ainda inimiga, portanto não se podia deixar que chegasse muito perto. Mas quem era agressivo era Putin, proclamando uma 'nova ordem mundial', 'policêntrica', reduzida na verdade a uma coligação de ditaduras ferozes para com o seu próprio povo. 

A recente posição da Finlândia e da Suécia (países habitualmente neutros), o seu pedido de integração na NATO (como já antes a vontade ucraniana de integrar a Organização), não resultaram de nenhum plano de expansão da NATO ou dos EUA, nem de qualquer outro fantasma dos que os soviéticos agitavam para assustar os seus discípulos contra o inimigo. 

Os vizinhos da Rússia conhecem-na, conhecem Putin e sabem que ele encarna ainda o expansionismo soviético e russo. Putin é um conservador em concordata com a igreja e os oligarcas, por isso Orban, M. Le Pen, Bolsonaro, se revêm nele (e procuram constituir uma igreja dominante quando há várias igrejas fortes). Mas o expansionismo que protagoniza, inutilmente, o chefe do Kremlin é uma herança histórica da velha Rússia - que não tem liberdade para resolver ou discutir os seus problemas (outra herança histórica da velha Rússia, o despotismo). 

Não há nenhum plano da NATO ou dos EUA para isolar e aniquilar os russos, nem nenhum plano de Putin para 'libertar' os vizinhos dos 'nazis'. Há só um plano de Putin para anexar os países vizinhos, ou confiscar a sua liberdade, como se fez na Bielorrússia, depois na Geórgia, manipulando esbirros do calibre dele, mas muito fracos de cabeça e falhos de personalidade. 

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2022/05/12/finlandia-quer-adesao-sem-demora-a-otan-suecia-tambem-deve-quebrar-neutralidade-militar.htm

Entretanto a Turquia bloqueia a entrada da Suécia e da Finlândia na OTAN. Porquê? Porque abrigam militantes curdos. A lei de Erdogan é a mesma de Putin, isso já sabíamos: eliminar toda a possibilidade de resistência política ou militar, de divergência séria e consequente. Na verdade, os choques entre a Turquia de Erdogan, a União Europeia e a NATO, já vêm de há anos e, prudentemente, os europeus recuaram na possibilidade de adesão da Turquia à sua União. Na verdade, Erdogan tem um pé na Europa e Otan, não pela Geografia, nem pela História (o que ligava a Turquia à Europa na História era o contrário do seu fundamentalismo islâmico). O pé firme, porém, está no mundo islâmico. Esse é o seu mundo e é o que ele representa às portas da Europa. 

As suas negaças tornam mais claro e mais difícil o jogo: de um lado, a liberdade, do outro as ditaduras. Erdogan não faria pirraça para que lhe devolvessem opositores se estivesse realmente preocupado com a expansão russa. E devia estar. Ou estará mesmo? Os próximos dias dirão. Porém, mais uma vez, ele mostra que só tem um fito: eliminar opositores e consolidar a sua monarquia islâmica, onde figura como presidente vitalício de facto. Vai haver eleições na Turquia? Também já houve antes... até na Rússia. 




9.5.22

A importância da gravidez


No combate pela superação da desigualdade de oportunidades há tanto para pesquisar hoje que não podemos abarcar tudo. Mas a neurobiologia vem trazendo contributos precisos que deviam talvez orientar mais as políticas de superação das desvantagens dos que nascem quando nascem.

De pouco vale, de facto, avançar umas migalhas à pobreza, que servirão, no máximo, para aliviar momentaneamente esta ou aquela família ou pessoa. Leia-se a notícia desta pesquisa:


Quer ela dizer que ficam desde logo (à nascença) condenadas certas pessoas pela falta de condições da mãe e do feto ao longo da gravidez. A notícia é grave. Leia-se o resumo:

Infants born to mothers living in poverty have smaller volumes of gray and white matter across the entire brain. Additionally, babies born to mothers who live in high crime areas showed differences in brain activity to those whose mothers lived in safer areas. Those born to mothers who experienced crime had weaker neural connections between brain areas that control and process emotions. Maternal stress, researchers say, could be a main factor in the differences in neuroanatomy and brain connectivity.

A própria e futura redução da criminalidade pode passar uma superação das dificuldades das mães vivendo nessas situações. A política de combate à pobreza e à desigualdade de oportunidades (iguais mesmo nunca somos) havia de começar por considerar todas as mulheres grávidas como se fossem doentes em cuidados especiais. É preciso criar condições para acompanhá-las, assegurar-lhes alimentação conveniente e controlada, assim como criar centros de grávidas para as mulheres que vivem em zonas de criminalidade, centros com aposentos para dormirem com os maridos ali. Claro que sempre haveria casos difíceis ou impossíveis, por exemplo aqueles em que o próprio marido é criminoso. Nesses casos as mulheres deviam ficar isoladas nos centros de gravidez e os maridos as visitariam cumprindo um código de comportamento que assinavam. Claro também que as mulheres que não precisassem disso não deviam recorrer a tais serviços. Assim, muitos mais fetos teriam um desenvolvimento normal e saudável. A humanidade iria dar um salto qualitativo e gigante no seu desenvolvimento harmonioso, que se começaria a notar em cerca de duas décadas.

8.5.22

Lembrança rápida em Azvostal

Lembram-se do Pacto Germano-soviético? A URSS não combateu os nazis, defendeu-se da Alemanha quando esta a invadiu e foi aliada dos alemães até isso acontecer. Hoje a Rússia invade outro país e diz que vai combater nazis. Ainda há quem acredite nisso. Acreditar nisso já não é ingenuidade, é colaboração com o inimigo.


10.3.22

Provável origem russa de perfis 'ocidentais' pró-Putin


A guerra na Ucrânia, sob ataque russo com as mesmas táticas que Putin usou na Síria, continua. A resistência ucraniana (e euro-americana) dura mais do que se pensou. Caso haja dinheiro para isso (apesar das turbulências das sanções, que também afetam os mercados sancionadores), a Ucrânia continuará resistindo, segundo parece, até ao último homem ou nem chegará ao último homem.

O que me traz aqui é outro aspeto. Putin aproveitou para cortar as redes sociais mundiais, isolando completamente os russos, e estas redes também queriam cortar a propaganda tortuosa, as distorções argumentativas (por exemplo: povos que têm a mesma origem devem viver sob o mesmo domínio, o do mais forte entre os da origem comum) e narrativas (exemplo de uma narração distorcida: russos e ucranianos são o mesmo povo. Quais russos? Os da Sibéria?) promovidas pelos russos para confundir 'o Ocidente'. 

Não sei se repararam mas os conteúdos distorcidos e retorcidos que circulavam pelas redes sociais são agora em muito menor número e são também muito menos os perfis que as acolhem e divulgam. Ou seja: muita dessa propaganda pró-russa tinha mesmo origem na Rússia. É um bom momento para se descobrirem, denunciarem e eliminarem perfis falsos desse lado do mundo. Quanto aos idiotas úteis, serão sempre úteis e idiotas e viverão sempre à custa de quem lhes sustenta a liberdade necessária para serem burros ou cínicos.

25.2.22

Anti-putinesca

Como era de se esperar, Putin ocupa a Ucrânia, que já vinha comendo aos pedaços há vários anos. Assim adia a falência da nova URSS por mais um tempo, mas fez uma guerra muito cara (a Síria, a Venezuela, o Mali, a Centro-Africana ficaram mais baratos e mais longe e darão bom lucro). Entretanto se joga na batalha da Ucrânia muito mais que a independência desse país: é a liberdade europeia e no mundo que está em jogo. 

O que é espantoso é ver que, mais uma vez, a 'opinião pública' em geral andava completamente baralhada (nos mais diversos quadrantes), deixando-se tocar por argumentos falaciosos, paralogismos e completas mentiras num jogo que o ditador russo domina desde os tempos da URSS. Intoxicada já com discursos autodestrutivos em nome de uma hipercorreção moral e política de fantasmas e de passados, fragilizada pelas fragmentações que tais discursos promovem através de grupos de pressão agressivos e repressivos, à esquerda e à direita, mostrando-se incapaz de competir com a agilidade russa (e norte-americana) na internet, a Europa livre não tem tido capacidade de resposta e vem somando fracassos internacionais a nível económico, político, militar. Os menininhos saídos das escolas de formação política sem qualquer experiência da vida vão, literalmente, azeitando o rabinho para não doer muito.

Perante isso, a aliança anti-democrática mundial, orientando-se por simples cálculos de causa-efeito (como faziam também antes os EUA), esmagando quem falha e quem não concorda, limitando-se a fazer contas e destruir prejuízos, apresenta-se hoje como a sequência vitalizada do antigo 'mundo comunista', unida somente em torno da defesa das ditaduras. Se as democracias não se assumem na eficácia da sua defesa, estão perdidas. O caminho é duro, mas incontornável: 

1) neutralizar internamente as forças que as corroem: 

    a) pela ação política, pelo argumento, obrigando a debates abertos os grupos opostos à democracia, sem possibilidade de manipulação de assembleias (debates na tv, por exemplo, apenas entre os intervenientes e com os telespectadores enviando perguntas por mensagens escritas); 

    b) por ação administrativa não financiando projetos culturais ou científicos que defendam soluções antidemocráticas na sua fundamentação e argumentação;

 2) preparando quadros por experiência de vida e não só pela formação académica, tendo os nomeados para funções públicas, necessariamente, que possuir provas conhecidas de eficácia em algum setor de atividade;

 3) exigindo-se uma governação mais consequente, penalização (por perda de elegibilidade por escolha popular ou por nomeação) de políticos que promovam publicidade enganosa (por exemplo não cumprindo promessas eleitorais que tinham condições para cumprir) e eliminando efetivamente bolsas de pobreza ou de marginalização; 

 4) aprofundando o sistema de representação de maneira a tornar o poder mais próximo das populações representadas; 

 5) dizendo diretamente a quem as quer destruir (ao defender soluções ditatoriais, repressivas, censuras, saneamentos ideológico-partidários, racistas, segregacionistas) que isso é intolerável e, portanto, que, não sendo objeto de repressão, não poderão tais pessoas beneficiar dos empregos e benesses do Estado que pretendem destruir;

  6) assumindo que a emigração, tal como se vem praticando ou admitindo, não pode prosseguir (sem prejuízo dos emigrantes legalizados até agora) porque não tem viabilidade económica. Nesse campo, propondo às comunidades divergentes (ciganos, etnias e emigrantes que não se pretendam integrar no conjunto nacional, nómades, alternativos) um pacto de convivência que assegure espaços regidos por regras próprias, exceto no que diga respeito ao policiamento, à submissão ao poder autárquico respetivo, ao pagamento de taxas iguais às dos outros cidadãos, às operações de saúde e de higiene ambiental. As regras de relacionamento entre comunidades específicas e comunidade nacional, num pacto desse tipo, estabelecem-se pelos princípios de justiça da comunidade nacional, pois não se pode rejeitar a maioria em nome da minoria.


Alinhavadas estas notas para uma hipotética discussão, me pergunto: qual o político democrático disposto a assumir as verdades que elas implicam e a justeza do mal-estar da maioria das populações? Macron quis perfilar-se nesse horizonte, mas revelou-se outro fracasso, sem coragem nem frontalidade, para além de ingénuo nas relações internacionais. Há mais candidatos credíveis? 


https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2022/02/25/russia-e-expulsa-do-conselho-da-europa-diz-ministro-italiano.htm

Para recordar a Revolução da Dignidade de 2014, um artigo equilibrado da BBCnews Brasil, publicado em 23 janeiro desse ano.

Já depois de escrita esta mensagem, recebi de um amigo uma "análise equilibrada", "muito bem escrita", etc., assinada por um historiador brasileiro, penso que professor na USP. Retoricamente é uma peça sintomática: sem qualquer sentido de equilíbrio ou de estratégia retórica entra logo dizendo que a culpa da guerra na Ucrânia é da responsabilidade de Joe Biden por querer alargar a NATO. Assim, na primeira frase. Depois nos convida: "mas vamos ao factos". Ora, ao que vamos é a alguns factos distorcidos e outros não distorcidos, todos comentados para guiar o nosso pensamento na direção da acusação inicial. No fim do historial devidamente comentado, quando refere a URSS e a Ucrânia, ou os problemas com a Ucrânia e na Ucrânia quando se formou a URSS, limita-se a dizer que ela reestruturou essa região, passando um pano branco sobre factos gravíssimos que mais animosidade ainda trouxeram, até hoje, aos ucranianos relativamente ao que vem da Rússia. Parece a estrutura retórica típica de um poder instituído e não discutível, por exemplo o da igreja institucional no tempo da Inquisição. Nesses momentos, claro, os textos começam todos por reiterar a opinião verdadeiramente dominante (ali era só a que se pretende dominante) e em seguida vão desfilando argumentos que servem somente para os que já acreditam e seguem as mesmas opções religiosas. Isso é muito esclarecedor acerca da mentalidade com que se escreve tais textos.