21.1.25

A posse de Trump


Cada vez menos venho escrever aqui, porque não há nada de novo para dizer. 

A posse de Trump significa duas ou três coisas que já tinha mencionado:

1) A nova esquerda, ao mesmo tempo relativista e identitarista, não significa nada em termos de votos, tendo maior peso eleitoral os votos negativos que provoca do que os votos a favor dos que a procuram integrar em campanha (nem a França é exemplo, meus amigos: o sr. Mélenchon e seu grupo são largamente minoritários se somarmos todos os votos dos que não se identificam com eles, e mais ainda se descontarmos os votos que lhes vieram do frentismo, aliás momentâneo e inconsequente. Depois das elucidativas cenas de comemoração da 'vitória' em Paris, ainda perderam mais). 

2) O identitarismo de direita soma votos por mera reação ao neo-identitarismo relativista da esquerda radical, ativista e pós-moderna. Em si, é incoerente, sem espírito próprio, mera amálgama de chavões agregadores da reação à esquerda ativista, ou de outros que legitimem uma política do tipo 'salve-se quem puder' e 'o mais forte manda'. O que une o populismo de direita hoje é uma rede de interesses que pretende usurpar o Estado e a corrupção para seu desfrute exclusivo e procura, por isso, lideranças que só lhe exijam não se meter em políticas partidárias, aceitar o poder tal como se exerce. Isto se nota na Rússia, na Hungria, nas novas ditaduras militares africanas e se notou no bolsonarismo, como na aventura do Chega e de Ventura em Portugal, uma aventura uninominal que só consegue manter as pessoas unidas porque estão cansadas e desiludidas com a ineficácia, a corrupção, a tibieza e a falta de soluções dos políticos profissionais. 

3) A indiferença, insensibilidade e cobardia dos políticos democráticos, evitando denunciar o identitarismo e o relativismo da esquerda pós-moderna (e de alguma da anterior), aumentou o sentimento da população que não se revê nos partidos do arco democrático porque, justamente, o seu discurso e a sua prática não contemplam as queixas dessa larga fatia de população votante.

A posse de Trump? Que fastio! Mais um festival de mau gosto dos que animava na TV. Jogou, de novo, areia para os nossos olhos e só daqui a um tempo iremos perceber até que ponto está preso a compromissos vergonhosos que não vão tornar os EUA grandes outra vez: sairão dali com o rabinho metido entre as pernas, ainda que façam muito barulho nas redes sociais.

O jogo político interessa cada vez menos. Estamos, em todo o mundo, a um nível inferior a tal ponto que é burrice ligar a isso: o processo continuará na curva descendente e quem mexe na merda apanha-lhe o cheiro e o sabor inevitavelmente. A posse de Trump foi um passo mais na descida aos infernos, que não trouxe nada de novo, pelo contrário. 

Mas não há uma solução? Sim, há: tomar juízo, desenvolver um raciocínio crítico personalizado, realizar exercícios diários de descondicionamento. 



5.6.24

Natureza, pessoa, coesão social

Um dos problemas da teoria e da prática políticas - um problema a questionar em liberdade - é o do lugar das inclinações, valores e desejos pessoais no quadro político e da justiça pública. 

A dicotomia que se desenvolveu nos últimos duzentos a trezentos anos extrema-se entre a negação, ou afirmação, do desejo e do pessoal como valores políticos acima de qualquer suspeita, valendo ou contradizendo princípios abstratos, de vocação coletiva ou coletivista, aos quais o pessoal, individual e voluntário se deveria sujeitar. 

Parece-me que de uma forma dupla a dicotomia se relaciona com as tradições. 

As tradições tendem a subsumir o pessoal na coerção social, no consenso quase familiar, ao qual os indivíduos se devem submeter (aparentemente concordando) para que não se gere instabilidade, que ponha em causa uma ordem costumeira. No entanto, para que uma ordem democrática e livre se torne tradicional, ou costumeira, é preciso quebrar o consenso anterior, porque as democracias nasceram reagindo a formas de coerção social em que, apesar de poder haver equilíbrios internos, havia ditames antidemocráticos vigorando no geral das atitudes institucionais e de chefia, estabelecendo por autoridade 'o que não se punha em causa'. 

Ora, a instabilidade e a contradição (a falta de consenso) fazem parte do jogo político em liberdade. Uma vez usadas, abrem para um regime onde já não será possível regressar a consensos e equilíbrios entre autoritarismo e liberalidade, sem contradição dos fundamentos (sempre mínimos) das próprias democracias. Por isso para os ditadores as democracias são intervalos e as suas ditaduras eternas. 

Houve tradições (ou períodos) tendencialmente abertas que exerceram, do mesmo passo, alguma coerção social (no sentido de um consenso) e uma gradual, quase experimental reformulação de costumes em face das discordâncias, sem deixar de respeitar os valores e os interesses por que se guiava aquela sociedade. Em reinados historicamente determináveis (em todo o mundo) essa marca se nota por instituições e práticas intervalares, em que momentaneamente as pessoas exercem a palavra sem coerção nem castigo posterior (por exemplo alguns julgamentos tradicionais em sobados da África negra). Após muitas voltas e algumas revoluções, é isso que hoje determina, penso, os conservadores tradicionalistas. em repúblicas democráticas (definição mínima: aquelas em que o voto popular deve ser respeitado e seguido no rumo governativo). Isso traz alguma margem de manobra à personalidade no seio do grupo ou da nação, por isso tais conservadores se tornaram personalistas ou defensores da individuação, da liberdade de opinião, valores que passaram a considerar-se... tradicionais. 

O conjunto de valores pode ser, assim, modificado por aspetos, reformado por partes, sem deixar de colocar a preponderância do consenso coletivo sobre a pessoa. Mas esse consenso não tem uma raiz democrática e, muito menos, libertária, ou de liberdade. O consenso consegue-se, em pequenas comunidades, através da coerção social sobre o indivíduo. Essa coerção não pode ser posta em causa: quando alguém a questiona é marginalizado. Um dos limites mais ferozes das soluções tradicionais mora aí, porque elas concebem o todo, o coletivo, como composição de pequenas comunidades organizadas por interesses locais ou profissionais. Isso é bom na medida em que evite que o jogo partidário corrompa o jogo de interesses corporativo, que é o jogo autêntico na vida quotidiana. Essa organização política parece-me saudável, mas apenas quando limitada pelo voto pessoal, individual, irrestrito, e protegida por legislação que impeça derivas autoritárias, o que podemos exemplificar na liberdade sindical.

Se o atrativo das tradições pode estar na tentativa de harmonização da novidade com a memória, do pessoal com o social, o limite que elas impõem afeta uma relação de igualdade valorativa entre o predomínio político da pessoas e o predomínio político da coletividade. 

O equilíbrio possível me parece vir, não do consenso, mas da garantia legal do jogo dinâmico e direto entre 'forças sociais' e da contradição dessas 'forças sociais' pela expressão e realização mais livres de cada um. Frequentemente, porém, o choque entre 'forças sociais' conduz ao domínio de uma sobre as outras, ao passo que o choque entre personalidades ativas e livres conduz à compreensão social da necessidade de diálogo, de com-versa. Por isso, quando o potencial ditador quer vencer a democracia, cria um grupo, instila-lhe valores que legitimam o seu poder e usa-o para esmagar as outras 'forças sociais'. Quer isso dizer que a legislação democrática e livre tem de - sendo nisso imperativa - resguardar o cidadão, melhor, a pessoa, melhor, o direito à insubordinação e à afirmação das pessoas, individualmente. 

O valor político da pessoa, das divergências, contradições, instabilidades, desde que permita operar-se por consensos mínimos em tempo de crise extrema (portanto provisoriamente), é o valor acordado à natureza humana. O valor ideológico do coletivo contraria sempre, seja por que lado for, a natureza humana e um dos trunfos do liberalismo, ou do capitalismo, é justamente a sua aposta em não chocar a natureza humana; se possível usam-na, manipulam-na, mas sem programar qualquer espécie de governação que implique neutralizar os seus efeitos pela força. 

Face a isto, fácil é de concluirmos que a maioria dos 'grupos de pressão', dos 'ativismos', das 'causas', atuam nas democracias em sentido contrário ao da liberdade. É, porém, necessário que existam, sendo perigoso que se consigam impor. É necessário que existam porque dinamizam contradições; é perigoso imporem-se porque tendem a anulá-las pelo esmagamento dos 'adversários' - ou, se quisermos, usando mecanismos de coerção, de coesão, de consenso para fins opostos aos que permitiram a sua emergência numa democracia. 

Quando uma democracia não percebe isto, parece-me que entra em processo de colapso. Parece-me, também, que os ditadores o sabem e que o grande problema da filosofia política hoje se centra neste debate. 


31.3.24

Sobre universalismo hoje


A denúncia e rejeição da chamada cultura woke (na continuação da influência anglófona - e sobretudo dos EUA - sobre a cultura mundial adotou-se mais um termo típico dessa semiosfera) alarga-se e cada vez há menos pessoas amedrontadas, que se atrevem a desmontá-la publicamente. É de saudar esse movimento de retorno à lucidez e à liberdade de pensamento. 


Vejo, porém, que, muitas vezes, a denúncia da cultura woke - uma cultura de terra queimada - coloca no vazio que ela deixou o mesmo que havia antes. Isso é mau sinal. Porque o contributo válido que os movimentos relativistas (e não os identitários) nos deixam é o que nos reforça os descondicionamentos que tornam mais universal, apurada e humana a reflexão. 


Parece, portanto, necessário criar alertas para os malefícios do retorno a visões estreitas anteriores. Duas observações, pelo menos: 

1ª - a cultura identitarista, que o relativismo promoveu ao combater o universalismo, é comum a movimentos de esquerda vulgar, imbecil sem dúvida, impreparada, que substitui o raciocínio pelo imediatismo ativista. Mas esses mesmos defeitos são comuns à direita chamada 'populista' (como se não houvesse esquerda populista). Não há diferenças políticas significativas entre os identitários do 3º mundo e os identitários europeus, entre a extrema direita europeia atual, ou a direita populista europeia, e os defensores do fundamentalismo banto, islâmico, árabe, étnico e vários etc's. E se alguém entender que haja, deixe comentário aqui, posso explicar em que medida e porque não há. 

2ª - o relativismo e o identitarismo, ou genericamente o culto das especificidades, ignora que somos todos seres humanos e isso tem implicações políticas também, não só epistemológicas. O universalismo humanista anterior estava um tanto esclerosado e beneficiava mais da retórica racionalista que das experiências, hipóteses e investigações científicas contínuas. 

É preciso refundar o tal universalismo. E em que nos podemos basear? Em duas ou três verificações, pelo menos: 

1ª - a mais antiga: todos os seres humanos apresentam traços culturais comuns. Por exemplo questões comuns (as respostas específicas são respostas a questões comuns), uma delas, a mais antiga talvez, Deus ou a religião. Mas outras: a questão da liberdade, a do caminho a seguir, a do poder. Outras em que nunca pensamos e nos determinam: para que serve a sequência dos dias e das noites? Como viver melhor? Para que serve contrastar e verificar semelhanças? As respostas específicas não variam tanto de etnia para etnia, ou de sexo para sexo, ou de país para país, quanto de grupos e pessoas dentro de cada comunidade e entre agrupamentos humanos em diálogo. Mesmo onde não há liberdade, mesmo onde uma opinião domina e tenta abafar as outras, as outras existem, ainda que só em pensamento, ou em rumor, ou falando baixinho em círculos restritos, ou secretos, como sucedia nos tempos da Inquisição em parte da Europa. 


Para reencontrarmos a universalidade humana há utensílios indispensáveis e seguros. A ciência, com destaque para disciplinas como a neurobiologia, a genética, a antropologia comparativa e evolutiva, a informática, as ciências cognitivas. 

Para que um novo universalismo nos devolva uma perceção fundamentada do comum e do específico é preciso, também, que a política de apoio à cultura e, sobretudo, à ciência e à tecnologia, venha estimular as ciências que nos devolvem à humanidade concreta, pesquisável, às ciências que nos estudam pelo que temos biologicamente em comum, pelo que também temos em comum e de diferente, biologicamente, com os animais, e que deteta as diferenças a levar em conta - por exemplo pela medicina, pela farmacêutica, pela componente de extensão nas ciências aplicadas.


É todo um programa político e também de política científica a erigir e a erigir com sentido de liberdade. Numa liberdade alicerçada ainda, no que diz respeito às políticas e às ciências, sobre o comparatismo salutar, inter e transdisciplinar, inter e transnacional, ou seja, orientado por essas ciências acima nomeadas. É preciso recuperar as comparações, pois o relativismo destruiu até o comparatismo, usando-o para tornar arbitrárias todas e quaisquer hipóteses que não fossem de contestação e de afirmação - meras - de poderes exclusivamente partidários.


Esta é a principal tarefa política e social do nosso tempo. Há uma segunda, mas estritamente pessoal, única para cada um de nós: a recuperação disso mesmo, da vida pessoal, intransmissível, eventualmente e em mais do que um sentido: espiritual, daquela espiritualidade que integra ou inclui o ateísmo. 


15.3.24

Crime, emigração e retórica de avestruz

 

Na edição de hoje do Le Figaro Magazine transcreve-se uma entrevista muito pertinente com Charles Sapin sobre os nacionalismos europeus atuais, melhor dito, partidos xenófobos e de direita radical. A entrevista se justifica pela publicação recente de

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Há dois destaques: 
1. Assustar os eleitores com os perigos do fascismo, do nazismo, da extrema-direita do século XX não resulta mais, até porque mesmo os que inicialmente foram neonazis ou neofascistas se afastaram das origens para se inserirem na atualidade; 
2. A forte subida eleitoral dos novos grupos à direita, sejam eles populistas ou não, se deve ao facto de falarem diretamente e sem pruridos na situação migratória, problema com que estão muito à vontade porque, não tendo estado no poder, não tiveram qualquer responsabilidade nela, basta-lhes apontarem o dedo. 

A situação migratória, relembro, varia de país para país. Na Suécia, ou na França, ou na Itália, tem contornos e consequências específicos, além dos comuns. Em Portugal o governo socialista e o seu partido, oportunamente, fizeram sair relatórios que demonstram que os emigrantes, ao contrário do que diz André Ventura, não são problema para a Segurança Social, dado o volume das suas contribuições. O chefe do partido Chega moderou-se e não foi só para conquistar moderados, ele simplesmente não tem elasticidade retórica nem cognitiva. Podia ler, ou mandar ler, em pormenor o relatório para lhe apontar eventuais lacunas; não o fez. Podia chamar a atenção, mas com dados estatísticos, para a criminalidade, mas só o faz 'por alto', ou 'de leve', atirando 'bocas' ao mercado dos votos. A credibilidade destes partidos cairá por si própria se forem mais lacunares ainda que os outros. O problema é que muitas vezes, como no caso do Brasil e dos EUA, só quando estão no poder se percebe que não têm soluções e são meros intrumentos de gangues internas de empresários sugadores dos dinheiros públicos e de gangues externas integradas na 'Nova Ordem Mundial' - que é, na prática, a retoma do pior que havia nas antigas ordens locais.

Alguns países procuram repetidamente ocultar nos noticiários a origem de criminosos cujos crimes ganharam relevo. É a continuação da política centrista de meter a cabeça debaixo do chão e fingir que essas estatísticas, e a própria migração para dentro da União Europeia, não constituem qualquer problema. São, na verdade, invasões aparentemente pacíficas, colocando-se os europeus perante o facto consumado de se estar ali à porta, 'ao Deus dará'. Raramente se responsabiliza o verdadeiro causador: arbitrariedade, má governação, ditadura, exploração, nos países de origem. 

É mesmo por esse tipo de estratégia que o centro político se esvazia, beneficiando os partidos tendencialmente autoritários de direita (visto que o autoritarismo de esquerda está hoje sem crédito nem futuro visível, além de, pela sua falta de elasticidade, se terem ressequido, limitando-se a repetir princípios e valores envelhecidos). 

É necessário que um governo traga para a rua, sem pruridos nem lacunas, um relatório bem fundamentado que nos esclareça sobre a relação entre aumento da criminalidade por tipos, categorias, e o aumento das correntes migratórias, ilegais e legais. É preciso que, depois disso, caso vejamos todos razão para tal, se anunciem medidas concretas, a médio e curto prazo, para diminuir o efeito negativo, medidas que não se limitam a mandar as pessoas embora no primeiro transporte que apareça - até porque elas voltam, ou similares. No Brasil, por exemplo, Bolsonaro e seus entusiastas diziam resolver a criminalidade mandando prender: é bandido prende (e, se puder, mata). Não resolveram nada e assistiram até à formação de filas para... entrar na prisão, com criminosos algemados nos seus carros (ou em outros) à espera da entrada no novo hotel que os protege de serem mortos por rivais. Não criou novos presídios, não resolveu a criminalidade antecipando-a pela criação de programas de reinserção, de promoção de potenciais criminosos (principalmente jovens) a funções que os afastem do crime e lhes garantam salário digno, residência longe de zonas de contaminação mais fácil, etc. Como Trump nos EUA também não resolveu qualquer problema com os emigrantes ilegais, apenas construiu um pedaço de muro inútil e inconsequente e vetou entrada de estrangeiros indiscriminada que também não evitou atos terroristas e criminosos dentro do país, nem diminuiu o número de mortos à bala.

Diz a última ciência que o avestruz, afinal, não mete a cabeça no chão por medo. Mas o avestruz político é um menino mimado (muitas vezes pelo estado social, outras pelos papás) que mete a cabeça no chão sempre que algum problema o incomode mais. O sistema democrático não se resolve por inércia.


24.1.24

Como se afundam as democracias

 ... por falta de vigilância, de eficácia e de cidadania.

Leia-se este trecho, destacado no artigo de opinião de Dantas Rodrigues no jornal português Observador:

É uma tragédia quem nos julga e nada cumpre, e nem é sequer obrigado a cumprir. Esquecendo-se que os prazos processuais existem para proteger as partes intervenientes e o processo não ser infindável. 

Continuamos lendo estas afirmações, porque a situação se arrasta governo a governo, eleição a eleição. 

Vem um demagogo e diz: estão a ver, 'eles' (e aponta o dedo ao vago) não resolvem nada. Claro, muitas pessoas vão votar no demagogo e nem se perguntam, sequer, quem ele foi até esse momento. 'Eles', é vago, mas todos conhecemos: são todos os que detestamos na política.


 

23.1.24

Portugal: exemplo de jornalismo a que não vale a pena voltar

Entre polémicas, despedimentos, negócios mais ou menos sigilosos e um congresso, jornalistas do Diário de Notícias fizeram um caderno chamado "DN em luta. 159 anos na vida de Portugal". Como também se vê por esse caderno, e por artigo do diretor José Júdice (rejeitado pelo Conselho de Redação em outubro), não é a primeira vez que o jornal se encontra em 'maus lençóis', nem os jornalistas com salários em atraso. 

A recorrência do facto não justifica o atraso nos salários, contra o qual (e os despedimentos) os jornalistas reagem com toda a razão. Torna-se ainda mais pertinente essa luta quanto, como dizem no seu comunicado de 19.1.2024, o 

presidente da Comissão Executiva, José Paulo Fafe, que assumidamente se recusou a pagar salários por estar em litígio, não com os trabalhadores do grupo, mas sim com outro acionista e com a ERC.

O que me traz aqui é o caderno histórico referido e suas imprecisões, ou lacunas, algumas delas sintomáticas. As vítimas do processo - os subscritores do comunicado - tinham vantagem em mencionar, por exemplo, os ganhos com publicidade na edição on-line, nas várias modalidades. Mas ocultam-nos. Porquê? 

Entre esta e outras, há uma grave omissão. No historial, refere-se assim o ano de 

1975 - José Saramago, mais tarde prémio Nobel da Literatura, integra a direção do DN, como diretor-adjunto de Luís de Barros, na época conturbada após a revolução do 25 de abril de 1974. Essa direção seria afastada após os acontecimentos político-militares de 25 de Novembro de 1975 e o Diário de Notícias esteve suspenso durante um mês.

Estranho, quando se trata de despedimentos, não referirem os desse ano, despedimentos exclusivamente motivados por discriminação ideológica e partidária. 

Em outro historial, este centrado no período em causa, Pedro Marques Gomes diz 

O período em que o jornal é dirigido pela dupla Barros/Saramago será, assim, marcado por inúmeras polémicas e manifestações públicas de discordância em relação ao seu conteúdo noticioso, sendo um dos casos mais mediáticos o do afastamento de 24 jornalistas na sequência da divulgação de um documento, no qual estes questionam a orientação do DN.

Como também se menciona aí, depois do 25 de novembro, foram despedidos mais 14 jornalistas, comprometidos com a quebra de imparcialidade e com a disciplina partidária impostas ao jornal por uma parte da redação e pela direção gonçalvista. E como também se vê pelo artigo do novo diretor do DN, José Júdice, as soluções apontadas passavam por subvenções estatais a jornais estatais, soluções nas quais a maioria do eleitorado (logo, dos contribuintes), como se viu nas eleições, não se revia nem se reviu.

Também nesses anos, a seguir ao 25 de abril em Portugal, as polémicas em torno do jornalismo parcial, partidário, controlado no geral por células e jornalistas afetos ao PCP, eram tão vivas quanto a própria política partidária. Pesquisas estatísticas foram feitas, não só relativas ao número de menções a políticos afetos ao PCP e ao PREC e à oposição, mas também relativas ao tipo de menção (negativa ou positiva) e são claros os resultados: a esmagadora maioria delas era positiva e relativa aos protagonistas do PREC e do PCP; uma absoluta minoria era relativa aos da oposição, da qual apenas se destacava Mário Soares (o último que faltava abater) e na quase totalidade essas eram negativas. 

Há perguntas que imediatamente nos ocorrem, pese embora a justiça da luta pelo pagamento de salários e contra mais razias na redação.

1) Ocultar esses despedimentos e a razão de ser deles, em que ajuda à credibilidade dos jornalistas que subscrevem o historial? 

2) Ocultar os ganhos e as mudanças e a capacidade de adaptação da redação aos novos meios de comunicação (genericamente on-line, em linha), ajuda os mesmos jornalistas? 

3) Em que medida a direção nomeada pelos proprietários de um jornal privado deve ser rejeitada pelo Conselho de Redação e que peso deve ter isso na decisão dos administradores? Será justo que o Conselho de Redação pretenda vetar a direção indicada por quem investe o dinheiro ali? Uma comissão de trabalhadores é que aprova a direção de uma empresa privada nos outros negócios?

Caso similar aconteceu no Le Monde, há muitos anos. Acabaram chegando a um consenso e o Le Monde mantém-se um jornal respeitável. Faço votos para que estes jornalistas, pela sua parte, superem os resquícios de militância policial que ainda os leva a esconder informação. 

Dito o que, torno a declarar: estou solidário com a greve e a luta contra o desemprego nas redações. Há vários títulos que mostram, em todo o mundo, que a reconversão para o jornalismo atual não implica, obrigatoriamente, despedimentos maciços e estas redações estão já muito reduzidas.



19.12.23

A tal ortodoxia


Apenas um apontamento: quando lemos a expressão "ortodoxia dominante", geralmente ela se refere a uma ortodoxia extinta e quem a usa insere-se numa ortodoxia que vem dominando a cultura euro-americana desde os finais da década de 1970.

Já sabemos: é mais fácil (aparentemente pelo menos) agredir um morto que um vivo. Que o digam Boaventura de Sousa Santos, por exemplo, ou Melenchon, etc., etc.... e até o Hamas, o Hezbollah, o Irão, as monarquias do Golfo, os Houtis e outros fundamentalistas islâmicos salvaguardados por uma esquerda paradoxalmente marxista, profana, vulgar, igualitária, que se diz ateia e vai cada vez mais aos misticismos do Oriente buscar o que matou na sua terra. Essa mesma esquerda que diz defender a liberdade e a justiça social e defende na prática regimes despóticos dominados por chefes populistas e oligarquias empresariais.



18.12.23

Cessar-fogo Coco Chanel entre Israel e Palestina defendido pela França

 Do Libération de hoje, 18.12.2023: 


Não visitou a Faixa de Gaza nem fez tal pedido ao Hamas e muito menos pediu que libertassem os restantes reféns para cessarem os combates. É a norma: malha-se em Israel e nas democracias, porque ali se pode fazer isso; nos outros países, onde há ditaduras, violências, violações (até 'constitucionais') dos direitos humanos, nenhum dos incomodados com as vítimas em Gaza, ou com migrações clandestinas, nenhum nem nenhuma vão lá falar, claro. 

Fazem lembrar aqueles meninos e meninas que vivem do dinheiro dos pais e passam o tempo todo a falar mal deles, a criticar o seu modo de vida, as suas práticas incorretas etc etc - como é bom viver assim, na cobardia de satisfazer os que nos amedrontam sacrificando os que nos beneficiam. 

E repare-se na demagogia: "cessar-fogo imediato e durável". O paraíso também, se possível, sendo o paraíso talvez uma loja Coco-Chanel muito limpa e bonita em todas as capitais do mundo, incluindo Gaza. Esta gente dos gabinetes nem faz ideia do que seja uma guerra, combates, a necessária relação demoníaca do matar ou morrer numa situação como a das relações entre palestinos e israelitas. Israel, mesmo que o pretendesse, não conseguiria garantir um cessar-fogo "imediato e durável", porque o cessar-fogo seria quebrado pelo outro lado assim que recompusessem os reforços de armamento e reocupassem posições. Mas a senhora ministra está a falar para a imprensa do seu país ...e da Cisjordânia, onde foi depois visitar palestinos expulsos por colonos israelitas (o que me parece importante fazer, mas ela devia ter visitado igualmente as famílias das vítimas do 7 de outubro, não?). Enfim, passará ao Líbano para resolver (imagine-se, com o "importante papel" que a França pode desempenhar) as tensões entre o país do Cedro (um eufemismo, sem dúvida) e Israel. Que boa senhora, tão bem intencionada! A França está realmente muito fraca!

30.11.23

Morreu Kissinger, a velha raposa centenária.

Professor universitário muito respeitado; político prudente, cauteloso, hábil; diplomata no entanto controverso, que sabia que negociar implicava manter a presença militar forte nas frentes ativas; alemão judeu com visão pragmática e plena cidadania norte-americana. 

Seria preferível que, em alguns momentos, ele cedesse menos, apesar do cerco mais agressivo e eficaz da URSS e seus aliados aos EUA e seus aliados. Desconfio, porém, que, se não fosse a atuação dele nos anos '70, a política agressiva de Reagan não teria resultado tanto e tão rapidamente na derrota comunista. Na verdade, a sua diplomacia também enfraquecia os inimigos com quem conversava, abolia despesas com longas guerras inúteis, em que a vitória nunca estaria assegurada, e abria vias de intercâmbio económico fortalecedor do sistema dos EUA.

Para variar, há uma esquerda cega e uma direita nazi que só veem nele contributos negativos, inclusivamente acusando-o de ser responsável por milhares de mortos, por exemplo no Vietnam e no Cambodja. É fácil desmontar essas distorções, nem vale a pena gastar tempo com isso. Quanto aos 'nacionais revolucionários' (e socialistas), é claro que um judeu alemão que fugiu para os EUA por causa de Hitler nunca vai ser elogiado por eles. 

A sua biografia no The Nobel Prize.


Um obituário interessante ao nível da informação e da análise pode ser visto aqui: 

https://www.euronews.com/2023/11/30/former-us-secretary-of-state-henry-kissinger-dies-at-100 


Também me pareceu razoável, equilibrado, o resumo biográfico publicado hoje no New York Times

https://www.nytimes.com/2023/11/29/us/henry-kissinger-dead.html?auth=login-google1tap&emc=edit_ufn_20231129&login=google1tap&nl=from-the-times&te=1



29.10.23

A impotência europeia

 - no Público de hoje, 29.10.2023. 

Continua lúcida a análise de Teresa de Sousa: "Aquilo que os líderes europeus poderiam ter feito seria ligar o ataque do Hamas a Israel à guerra da Rússia contra a Ucrânia".

Ela não diz o que está certo ou errado, moralmente, por ideologia ou por religião. Faz uma análise estratégica das possíveis tomadas de posição, dando sinal da mais útil e ao mesmo tempo respeitadora dos valores da Europa democrática. 

Claro que é por aí, sem deixar de, muito claramente, denunciar a causa da crise: o ataque mais bárbaro aos judeus desde os tempos de Hitler. 


22.10.23

A 'justiça social' e um editorial do Público

O editorial do Público de 22.10.2023 é sintomático da linha seguida ultimamente pelo jornal: aí se defende que Mamadou Ba e Paddy Cosgrave não deviam ser condenados, ou seja, sofrer as consequências de afirmações suas, em regime de liberdade e de justiça isenta, que julga os crimes e não as razões políticas do momento como se faz em regimes totalitários. E porquê? Porque a justiça não deve tomar decisões sobre um crime tomando-o apenas como crime, no primeiro caso (crime de difamação). Se as posições de Machado podem incentivar o crime de assassínio sobre Alcindo Monteiro - a todos os títulos reprovável e condenável, mas sobretudo enquanto crime - também as posições de Paddy Cosgrave incentivam os atos terroristas do Hamas e também as posições de Mamadou Ba sobre matar os brancos incentivam crimes racistas. Pela mesma lógica, deviam também ser presos e condenados os dois, a par de Machado, pessoa com cujas posições, sublinho, não me identifico de maneira nenhuma. Como não me identifico com a ditadura e o terrorismo do Hamas, nem com a sua utilização da população civil para se esconder, nem com crimes de guerra que realmente o sejam, como por exemplo os praticados ultimamente pela Rússia na Ucrânia atingindo alvos civis que não escondiam armas nem militares ucranianos. E se Israel comete crimes de guerra, também eles devem ser condenados e o seu governo condenado por cometê-los. 

Porém, se alguém nos acusa de um ato que não cometemos, esse crime terá de ser condenado e mesmo por ser crime, não por ser mais ou menos político. Se o criminoso, condenado a pagar uma multa, ridícula de resto para a gravidade das suas afirmações, diz que nunca pagará, reincide em atos criminosos e se recusa a jogar o jogo da justiça, abertamente. Não respeita, não só as regras de convivência das sociedades livres (em que cada um se torna responsável pelas acusações que faz em público), como também todo o sistema de justiça. E porquê? Porque foi condenado e não queria. 

O que defende o editorial em alternativa? Um julgamento político. De acordo, claro, com a 'verdade social' defendida por David Pontes e que não é consensual, portanto não pode ser uma verdade social - coisa já de si duvidosa em países livres. O julgamento político defendido pelo editorialista seguiria cegamente o critério de que há uma responsabilidade moral de Mário Machado no crime, porque ele foi executado em nome da mesma postura política do acusado por Bá (o tal que, simbolicamente claro, queria matar os brancos que há em nós). Daí que o seu nome deva ser publicamente condenado por um assassínio que ele não cometeu e que Mamadou Ba tinha a obrigação de saber que ele não cometeu, antes de o acusar. Mas Mamadou Ba, graças ao tipo de pensamento que David Pontes exibe, sente que não tem de se responsabilizar perante a justiça pelo que diz, porque politicamente estaria certo. Para quem? 

Passando ao segundo herói do editorialista, parece que David Pontes não percebeu que o mesmíssimo argumento (a justificação política de um crime) justifica que empresas como a Google, a Amazon, a Meta e outras empresas e outros países, como Israel, se afastem da Web Summit. Há uma verdade inquestionável: o Hamas praticou dois crimes de guerra gravíssimos que geraram a atual crise militar: um massacre e uma tomada massiva de reféns - que continua a deter consigo, tendo libertado apenas duas norte-americanas. Há uma larga faixa de votantes e cidadãos livres de países livres que não se revêm no falso consenso em torno do Hamas, que os 'posts' pró-palestinos tentam impor, incluindo com uma invasão do Capitólio que, no tempo de Trump, justamente condenámos quase todos nós. 

Além disso, em países livres, as empresas são livres de participar só das iniciativas que lhes interessam. Se um organizador de uma iniciativa decide ser pró-Hamas e condenar Israel e eu, dono de empresa, rejeito essa posição, não vou participar da iniciativa dele, porque estaria a dar força ao que ele defende e eu condeno. Isto é o próprio jogo da liberdade. Em nome do quê podemos condenar empresas por se distanciarem de afirmações que legitimam os argumentos do Hamas, que mantém reféns ilegalmente? E note-se que Paddy Cosgrave não condenou o Hamas por isso, nem a Jihad Islâmica pelo foguete oportunamente falhado nas vésperas da visita de Biden, nem o Hamas por manter os reféns até agora, nem relacionou os bombardeamentos israelitas com os reféns mantidos pelo Hamas. Tardiamente, ao ver o seu posto em perigo, é que veio condenar o Hamas por ter feito reféns e um massacre. Mas só então se apercebeu disso? 

Cosgrave, como toda a 'pessoa pública', tem de assumir as suas posições, é livre de o fazer, e tem de arcar com as consequências, ou seja, tem de aceitar que 'os outros', não concordando, se afastem dele e das suas iniciativas. Se combatemos isto, combatemos a liberdade em nome da qual escrevemos. Cosgrave foi obrigado, pela pressão social, a perceber que vive numa sociedade onde a sua opinião não pode ser inquestionável e, portanto, pode ser derrubada por pressão da 'verdade social' e dos que se recusam a alinhar em eufemismos para defender os atos terroristas do Hamas, ou recusar o direito de Israel retaliar e se defender. Como o editorial indiretamente faz, por apoiá-lo, pois, quem apoia uma opinião que defende ou favorece uma organização terrorista, apoia essa organização terrorista e os seus crimes. Repare-se que David Pontes em nenhum momento reconhece que Paddy Cosgrave estava a defender o Hamas, em nenhum momento do seu texto refere os crimes do Hamas, e tenta pelo contrário, se não criminalizar, pelo menos condenar publicamente as atitudes de resistência à defesa pública dos atos do Hamas, ou à recusa pública em denunciá-los antes de denunciar os bombardeamentos israelitas que lhe respondem. Enquanto manifesta a sua opinião, está a fazê-lo em liberdade e tem o direito de o fazer; enquanto procura condenar o uso da liberdade por quem discorda dele, aproxima-se de uma tentativa de limitar ou condenar a liberdade 'dos outros'. É esse tipo de pressão, totalitária, que vem desvirtuando (pouco me importa se pela esquerda ou pela direita) o regime de liberdade em que vivemos.

Essas empresas, e Israel (o atacado por Cosgrave), ao se retirarem da web summit, não estão a mostrar "pouco amor à liberdade de expressão", mas a usar a sua liberdade para serem consequentes com a sua expressão. Já do editorial do Público, feito como está, se deduz que, sim, se pudesse, limitaria a liberdade de expressão à concordância com o que disserem Mamadou Ba e Paddy Cosgrave. O artigo de Pontes distorce mesmo a realidade. Leia-se: "ao contrário do que deveria ser sólido nas sociedades ocidentais, a liberdade de expressão se desfaz com facilidade com julgamentos errados." Ora o julgamento errado, meu caro editorialista, que pode levar à diluição prática da liberdade de expressão, parece-me ser o seu e não o de Israel defendendo-se, ou das empresas usando a sua liberdade para se recusarem a participar de eventos dirigidos por um homem tendencioso quanto ao Hamas, que lidera a faixa de Gaza com uma ditadura férrea, não com liberdade de expressão, nem com um regime comparável ao de Israel. O Hamas não admitiria que alguém o condenasse e fosse lá organizar uma web summit. Portugal, que não concorda com Paddy Cosgrave, admitiu no entanto que ele tentasse organizar um evento no país. E fez bem. O governo português e o seu presidente estão, por isso, de parabéns. A justiça portuguesa, no caso da condenação da Mamadou Ba, está igualmente de parabéns: julgou um crime enquanto crime e o deu por comprovado.


Nota posterior: no número de hoje do mesmo Público, 23.10.2023, Carmo Afonso insiste nos mesmos tópicos, como 'sementes de alfarroba'. Faziam-lhe bem, as sementes. O seu texto nada acrescenta, só repete os lugares-comuns da sua tribo. Queixa-se de um "consenso estabelecido" a favor de Israel, mas o que vemos em muita da imprensa e nas redes sociais é a tentativa de impor um 'consenso à força' a favor do Hamas. Uma vez que ela repete os mesmos argumentos, não vale a pena perder mais tempo com o seu texto. 


"Israel afunda-se na armadilha para onde foi conduzido pelo terror do Hamas. O seu justo direito de defesa assume as proporções de uma catástrofe" - este o destaque do editorial de hoje, 2.11.2023, de David Pontes no Público. Bem diferente do que já critiquei, neste mesmo 'post' ou mensagem. Muito mais equilibrado e, se não justo, revelando justeza. 

Inteiramente de acordo com quase tudo o que ele diz, apenas discordo em duas aparentes ingenuidades: a primeira vem nesse cabeçalho, é que Israel, com o Hamas dominando a Faixa de Gaza, não tem qualquer alternativa, porque os dirigentes do Hamas se escondem por trás da população civil, como toda a gente sabe e pouca gente refere. 

A segunda é uma consequência da primeira. Dizer que se deve "pôr a salvo o maior número possível de civis" e defender "a negociação da libertação dos reféns" é, no mínimo, ingénuo. Ingénuo porque entre esses civis irão ser postos a salvo dirigentes do Hamas, responsáveis diretos por esta crise. Dificilmente conseguirão passar um 'pente fino' a tal ponto que nenhum seja detetado. 

Mais ingénuo ainda, mas mais do que ingénuo, defender negociações para libertar reféns. A libertação dos reféns só pode ser incondicional. Israel disse que o prosseguimento do conflito dependia da libertação dos reféns e o Hamas começou a colocar outras condições. Ora, se a libertação dos reféns não for incondicional, estamos a aceitar a chantagem do Hamas, que também faz chantagem com os seus próprios civis. Está-se a aceitar a causa do conflito e a dizer ao Hamas - para a linguagem dele - que pode fazer mais reféns porque isso é negociável, acabarão cedendo a pelo menos uma parte da chantagem. 

O que vimos é que o Hamas, como qualquer ditador e como qualquer grupo terrorista, só cede por medo, forçado (exceção para ditadores loucos como Hitler). E foi por medo dos EUA e de outros países, tentando ao mesmo tempo criar divisões entre os aliados de Israel, que libertaram alguns estrangeiros. Em que medida os países 'beneficiados' irão compensar o Hamas pelo seu crime? 

É por estes motivos - e não por radicalismo político - inegociável a libertação dos reféns e inegociável qualquer trégua com o Hamas. O que, por sua vez, implica não ter Israel qualquer alternativa ao que fez, não por ser arrastado para uma armadilha, mas porque o Hamas domina a Faixa de Gaza, constituindo uma ditadura sem deixar as práticas terroristas. E uma ditadura, de resto, é uma forma de terrorismo de Estado... 


Uma opinião pertinente no Público de hoje, 3.11.2023 - a de Francisco Mendes da Silva (p. 8). 


20.10.23

A chusma dos 'posts' e a guerra Gaza-Israel


Não precisamos de perder muito tempo nem de remeter para qualquer citação, post, vídeo, imagem lacrimosa a apelar ao sentimento dos incautos piedosos.

O Hamas atacou Israel e continua sem reconhecer o Estado israelita, assegurando que vai destruí-lo. Matou, com plano prévio, todos os civis que encontrou pela frente, exceto os que fez reféns. 

Israel contra-atacou, defendendo-se, com os meios que tem, superiores porque em poucas dezenas de anos se tornou um Estado progressivo, desenvolvido e poderoso, ao passo que os palestinos, recebendo anualmente milhões ou bilhões de dólares de países árabes e de ajuda internacional, ainda não saíram do ciclo das ditaduras, da corrupção, da repressão, do terrorismo e do mero consumo-gasto de ajudas. 


A 'comunidade internacional', arrastada pela chusma dos 'posts', imediatamente se solidarizou com os palestinos vítimas do contra-ataque. Muitos nunca mencionaram os dois crimes gravíssimos cometidos pelo Hamas: o massacre de civis e a tomada de reféns, crimes de guerra, violações das leis internacionais, que deram origem à nova fase do conflito. 

Israel disse que, se o Hamas libertasse os reféns, a contraofensiva parava, pelo menos o tempo necessário para salvaguardar mais vidas palestinas. O Hamas respondeu com um vídeo onde mostrava um bébé, que seria refém, com os seus militares-terroristas no terraço de um prédio, com ar contente, festejando. 

A comunidade internacional e a chusma dos 'posts' cada vez aumentam mais as vozes contra o poder militar israelita e sua capacidade de resposta sem referirem que o Hamas continua a manter reféns israelitas em seu poder (e faz do seu próprio povo refém). 

Entretanto, um foguete ou rocket mal atirado, oriundo de um local controlado naquele momento pela Jihad Islâmica, que bombardeava Israel, provocou um desastre humanitário num hospital de Gaza e numa zona que devia estar evacuada. Sob o solo do Hospital havia um arsenal de armas que explodiu. Os vídeos espalhados por Israel, um deles da Al-Jazeera ao vivo, são suficientemente elucidativos: um foguete explode no ar e depois se dá a grande explosão no Hospital sem que se visse nenhuma bomba a cair de um avião, nenhum projétil vindo do lado de Israel. 

Mas a própria Al-Jazeera, que nunca fez um noticiário isento, continua ignorando o seu vídeo e reportando os acontecimentos na versão distorcida dos palestinos. Até a CNN fala do assunto veiculando a versão palestina e falsa de um bombardeamento israelita que até hoje não conseguiu demonstrar ou provar. 

Ninguém mais lembra que

1) O Hamas praticou um massacre que despoletou a situação.

2) O Hamas continua a manter reféns israelitas impedindo assim qualquer trégua.

3) O Hamas e a Jihad Islâmica e as autoridades palestinas ainda não demonstraram que foi um bombardeamento israelita que provocou a explosão no subsolo do Hospital.

4) O Hamas e a Jihad Islâmica mantêm-se escondidos entre a população civil, tornando-a refém, carne para canhão, o que também é crime de guerra. 

5) Há vídeos a circular que mostram bem que não foi nenhum bombardeio israelita que provocou o desastre do Hospital, acidente que não dava jeito nenhum a Israel na véspera da visita do presidente norte-americano. 

6) Até hoje não se sabe ao certo quantas pessoas morreram na explosão do Hospital, nem quantos dos mortos eram efetivamente doentes, nem quantos militantes ou terroristas palestinos estavam abrigados ali. 

Ignorando estes 6 pontos, nenhum noticiário, nem nenhum comentário, podem ser tidos em conta, veiculam uma versão distorcida, promovida pelo terrorismo do Hamas e da Jihad Islâmica sem qualquer prova. 

A atitude a tomar é a de não dar qualquer sequência a comentários e notícias tendenciosos. 


Por acaso, no Observador de hoje (22.10.2023): "Vídeos de ataques que afinal são videojogos e palestinianos ao relento que na verdade são jovens católicos em Lisboa. Há duas semanas o Hamas invadiu Israel e a desinformação invadiu as redes sociais."


17.10.23

A culpa

é um jogo de simulações para legitimar as mortes e a morte é sempre injusta, na política ou no resto da vida. 

Nesse jogo de culpas, que a História conhece bem e nas mais diversas e funestas variações, um ex-ministro angolano fez uma descoberta sensacional: a culpa da guerra em Gaza é de Israel e dos sionistas porque eles não aceitam um Estado Palestino. 

Só mesmo um governante de um partido que nunca respeitou as suas próprias leis, e que está com poder autoritário desde 1975, pode proferir uma tão descarada mentira. Então o sr. ex-ministro, comunicólogo intenso, não reparou ainda que o Hamas não reconhece o Estado de Israel e jura lutar até à sua total destruição? E que esse Estado assinou compromissos internacionais aceitando a solução dos dois Estados? 

Também não percebo como, em nome da liberdade de imprensa, um Diário de Notícias aceita, sem rebuço nem comentário, tamanha falsidade. É a lusofonia? 


11.9.23

Boutade carbonária

 

Carvão e cabrão não são palavras muito diferentes. A sociedade dos carvoeiros agradece. Mas a verdade é que, indo por violências, foi-se por aventureirismos e precipitações. Deu no que deu. Mais do mesmo e talvez pior.



6.6.23

O pós-lítico

 

Pouco a pouco, a humanidade vai finalizando a extensa etapa neolítica e, com isso, vai se reestruturando, ou pressentindo a necessidade de o fazer, ou sentindo, pelo menos, a desadequação dos modelos e valores líticos. Acontece em todos os campos de atividade. 

Uso dois para exemplo. 1) O político, focado na representatividade; 2) O artístico, focado na recoleção e refuncionalização. 

1) As diversas formas de representação política foram se aprofundando, principalmente nas democracias. A representação orgânica, apesar de manipulada por regimes totalitários e por isso rejeitada, era útil (e em parte ainda o é), sendo por isso recuperada através de órgãos como Conselhos de Concertação Social ou Económica, em democracia mais consequentes do que as assembleias partidárias, cuja função hoje tem sido mais, nesse aspeto, vigiar, aprovar, ou reprovar - uma função idêntica à dos reis em monarquias modernas ou liberais, apenas com o redutor acrescento da subordinação a estratégias meramente partidárias. O crescimento do poder local, o reconhecimento da sua representatividade, remete-nos de novo para a recuperação, em democracia, de um modelo orgânico de representação e de concertação política real. 

Entretanto, crescem os empregos e os nómadas digitais, as facilidades de deslocação para mudança de residência, como também a mobilidade financeira pela facilitação das operações cambiais e bancárias. Aumentam, por igual, os empregos alternativos, subempregos e desempregados que se 'remedeiam', se 'viram', com pequenas atividades e rendimentos, as consequências da automação máxima das atividades mecânicas, antes asseguradas por artesãos (hoje reduzidos ao artesanato personalizado, muito mais digno, mas menos lucrativo para empresários). 

O modelo tradicional de casamento monogâmico esboroa-se em paralelo, continua a esboroar-se desde a aceleração do quotidiano provocada pelo domínio absoluto das indústrias e do comércio de massas, com seus horários, pressas e pressões e suas linhas de produção contribuindo para o hábito de alinharmos o pensamento, colocarmos tudo em prateleiras. Estar casado ou não, ter várias parceiras ou vários parceiros, é uma questão de prateleiras, indiferentes umas às outras e os apertos dos horários e das tarefas urgentes não nos permitem já manter acesa durante algum tempo a chama de uma paixão primeira, mais funda, mais forte. Passamos os dias (e por vezes as noites) com outras pessoas. O parceiro(a) passa a ser apenas o da rotina dos sonos ou, quando muito, o dos fins-de-semana entediantes em família, das discussões sobre o destino a dar ao dinheiro e à falta dele, por vezes aos filhos... Isso traz implicações políticas, além de estimular a anulação do pensamento por alinhamentos prévios, típicos da produção em série. Com tempo e o avolumar das tensões, do mal-estar, do sentimento de não nos vermos representados e realizados, isso vai nos levar a pensar no que fazemos e como. Porque somos escravos do trabalho? Onde começou tal escravidão? Não foi na Bíblia, não. Vai ter de se repensar a estruturação do poder e da legitimidade, mas sobretudo da representatividade quealicerça e efetiva poder e legitimação, que não podem continuar a governar-nos metendo-nos em becos sem saída, em prateleiras e quartos. 

As estruturas de mando e representação, com recuos e avanços, foram seguindo modelos muito primitivos, titubeantes, oscilantes, mas que se definiram melhor e se complexificaram com o neolítico, a concentração urbana e de bens, uma conceção integrada e alargada de defesa do grupo, a sedentarização e a estabilização tendencial das hierarquias sociopolíticas. A monarquia tornou-se uma espécie de espelho e regime natural da sociedade humana, que no entanto suportava bem repúblicas autónomas, que tendiam para impérios (mono-árquicos) conforme se estendiam e enriqueciam mais. O que as monarquias tinham de melhor era uma visão orgânica e autárquica da sociedade, embora gradualmente se centralizando até ao ponto de sistemas absolutistas que as implodiram em repúblicas e partidismos por reação, deixando a estruturação social tradicional implodir também, com as pessoas isoladas perante o Estado - o novo Absoluto. Mas as monarquias foram superadas, se olharmos mais fundo, não pelos liberalismos, nem pelo assassínio dos reis, foram superadas pela produção em série, pela atribuição de categorias e estantes meramente em razão de reduzirmos os custos e aumentarmos os ganhos. Isso é necessário para gerir uma empresa, mas é ruinoso quando se exporta para fora da gestão de empresas. Ora, uma monarquia pode ser considerada uma despesa dispensável e, no entanto, volumosa. Então acaba-se com ela e ficam-nos os reis da banca, do aço, do petróleo, das várias prateleiras da produção acelerada.

O recente modismo dos regressos radicais, extremos, muito ao para trás no tempo, que impera nas dietas, nas roupas, em certos costumes e na recuperação de rituais arcaicos, implica o repensar do próprio processo que trouxe a humanidade aos dias de hoje, do que se pensa e pensava serem os seus fundamentos. É salutar, mas caminhamos a passos largos para uma política e uma humanidade pós-líticas e ainda não vislumbrámos as adequadas estruturações políticas e representativas.


2) As artes estão exatamente no mesmo ponto, embora com o seu nível próprio de complexidade, mais intenso e diversificado, por vezes ainda mais avançado. 

As instalações, performances, ready-mades, colagens, articulam-se com práticas antigas, mas recontextualizadas, de recolha e refuncionalização de elementos contextuais. A diferença consistiu somente - sobretudo no século XX - na massificação e no descaro dessas práticas, tornadas igualitárias (qualquer um pode praticar, independentemente das consequências estéticas e éticas), de todos para qualquer um, indiferenciadas, aleatórias e, sobretudo, feitas em bruto, sem preocupação de esconder o 'segredo' que mitificava o 'génio', mais que individual, pessoal - e, por tanto, intransmissível. A reciclagem de que tanto fala a ecologia, com defensores das energias renováveis, e similares atitudes ou posturas que parecem constituir soluções (e podem mesmo ser), em verdade estão a revisitar os fundamentos, os começos, da época lítica e sobretudo a passagem do paleo para o neolítico. Em arte, as disciplinas híbridas acompanham criativamente e mimetizam essa revisitação. Porém, tanto quanto na estrutura de representação e na de poder, não se deu passo para o pós-lítico, ainda vivemos a funda e vagarosa transição. Somos cães domesticados: ainda estamos a alçar a pata para marcar terreno sobre o asfalto e o 'concreto'. 

Como sabemos estudando literatura, os mimetismos, hibridismos, as colagens, o culto da performance e de ready-mades verbais acentuaram-se nos séculos XIX e XX nos países mais desenvolvidos técnica e economicamente, sobretudo nas democracias do hemisfério norte, mais ricas. Mas eles eram e são constituintes de qualquer arte e mimetizam os mesmos processos de recolha, armazenamento, reaproveitamento. São processos que, intensificados, vieram a dar em sistemas e estruturações de representação e de poder típicos do neolítico, desse neolítico ainda presente. 

Muito lentamente algumas manifestações artísticas procuram mimetizar a maleabilidade, portabilidade, e dinamismo dos seres humanos nas sociedades atuais e a sua instável e insatisfatória (por enquanto) sociabilidade. Há experiências híbridas entre o teatro, a performance, a mímica, o episódio curtíssimo (sketches, cenas, vinhetas), com pessoas por vezes ligadas a mesas de mistura que ampliam e remisturam a produção do performer e a reação do público. São exemplo de mimetização dessa maleabilidade, portabilidade, informatização e dinamismo social instável. 

Experimentações anteriores em três ou quatro décadas, como as dos motores textuais e da ciberliteratura, tentaram chegar ao limite possível e impossível das típicas montagens, recolhas e colagens que foram a base das artes humanas desde o neolítico. Os motores textuais, por exemplo, dessacralizaram as reestruturações, colagens e montagens pela reprodução, sem critério de escolha, de todas as combinatórias possíveis de um determinado agrupamento de palavras, em frase ou mesmo sem frase, como numa linha de produção aleatória, sem definição de série. A ciberliteratura mostrou que o próprio texto pode ser mutável, inesperado, e variar, não só de pessoa para pessoa, mas com a mesma pessoa, quase materializando um procedimento cerebral e neurobiológico básico do funcionamento humano. Film-letras - antepunha e antecipava Augusto de Campos. Essa experiência aproximou-nos - arrisco dizer - da expressão da vivência de hoje, em constante mutabilidade, instabilidade e sem tábua de salvação. No entanto era controlada pelo programador de software

A maior parte da produção literária continua se fazendo como se tais experiências não fossem de levar em conta, não mexessem com nada. Por vezes escrevem-se poemas que são fragmentos, anotações, sem preocupação de unidade, acasos, mas sofrem da mesma ausência de escolha, propósito e ressignificação que inviabilizou as experiências informáticas. E também são fragmentos frouxos, tíbios, frágeis mas não delicados, pouco mais que manifestações de vontade de dizer, próprias de adolescentes que aprenderam a falar mas ainda não a discursar ou declamar. Então continuamos a ler uma poesia costumista, intimista, penumbrista, com versos aparentemente modernos (a modernidade de há cem anos atrás) e no entanto ritmados para sugerir ambiências recolhidas, particulares, entre gaveta e armário, com metáforas polidas e qualquer coisa de crocante nas pastilhas elásticas. Esse costumismo prosaico e versicular irá manter-se, amanteigado, cremoso, luxuoso, ou aparentemente irrequieto, com seus resquícios de grão para que sugira sementes, algum erotismo mais atrevido na aparência (mas de facto banalizado), aleatório no bem-estar típico das sociedades com melhor nível de vida e liberdade. Só quando se passar a uma humanidade e a um quotidiano totalmente pós-lítico se perceberá quanto e em que medida, ou qualidade, foram pertinentes as experiências cibernéticas e performáticas, tateando as possibilidades de uma expressão artística pós-lítica. Até lá, tais experiências não se devem também tomar como mais do que isso. 


30.4.23

Universidade e Política: desfazendo equívocos

Aqui e além vemos repetirem-se chavões sobre as relações entre universidade, ciência, política e partidos políticos. É a maneira destas sociedades 'de massas' funcionarem, tipo pasta, mistura-se tudo, indiscriminadamente, atinge-se um chavão e depois lutamos uns contra os outros através de chavões. É esse procedimento o principal aliado dos inimigos da liberdade e da democracia, porque não há liberdade de chavão e o voto de clichê é a recusa de fazer escolhas. 

O mesmo sucede com o tema da Universidade e da Política. Tornou-se canónico dizer que "o poder" (outro chavão que dá muito jeito aos trapalhões do pensamento), "o poder" não deve interferir na... escolham: academia, universidade, ciência. Deve, no entanto, financiar. 

Quero pensar nisto sem me referir a casos episódicos, outro truque para baralhar as pessoas, que é o de usar casos episódicos (quero dizer: não elucidativos do que está em debate, mas sim de boas ou más condutas deste ou daquele protagonista), usar casos episódicos para neutralizar argumentos e propostas que vão muito para além deles. 

Comecemos por clarificar isto. Se o comunismo falhou na Rússia, podia ser episódica a falha. Se falhou em todo o mundo, se nunca se realizou a progressão que os primeiros comunistas imaginaram e se manteve sempre válida (a caminho da sociedade sem classes), então são demasiados casos episódicos e temos de postular a hipótese de o comunismo ser impraticável. 

O mesmo para os nacionalismos exacerbados, os fundamentalismos, identitarismos, etnicismos e tribalismos. Se todos esses 'ismos' produziram guerras, violência, repressão, mortes indiscriminadas e outras que, discriminadas, não deviam ser mortes, então será de pensar que os 'ismos' não-comunistas provocam igualmente uma série tal de distopias que se tornam, para a sobrevivência da espécie e por questões éticas, impraticáveis.

O que nos levaria a pensar que o mal está nos 'ismos'. É, porém, mais funda a raiz do mal e os filósofos até hoje mal se entendem sobre isso. O mal está numa atitude que visa condicionar, limitar, dirigir, encadear a perceção e o pensamento. Quando certa esquerda, com o lamentável e distópico Chomsky, falava em 'pensamento crítico', ingenuamente muitos pensaram que se tratava de ser crítico relativamente a essa atitude que visa manipular os outros para fins de poder, tal como a publicidade os manipula para fins comerciais e pior ainda, porque supõe normas repressivas, que forçam, quando a publicidade aposta apenas no convencimento, na sedução, na manipulação afetiva, na sua retórica própria, sofística sem dúvida, mas visa tão somente convencer-nos a consumir produtos de uma dada série. 

Quando se tornou consensual que "o poder" não devia exercer-se sobre as universidades, a ciência, a filosofia, as artes, até parecia liberalismo: o Estado não interfere. Mas não era, porque o mesmo "poder" ou "Estado" devia sustentar tudo isso. Ora, esse "poder" ou "Estado" é financiado por todos, porque todos somos obrigados a pagar impostos e a ceder rendimentos comuns (por exemplo, o petróleo angolano - ou de qualquer outro país - é de todos os angolanos, mas apenas favorece os que efetivamente controlam o tal "Estado", ou seja, os angolanos cederam para essa elite político-partidária um rendimento comum, uma cedência de resto sem qualquer alternativa para além da morte). 


Se o dinheiro que sustenta "o poder" é de todos e se "o Estado" deve financiar sem intervir usando esse dinheiro comum, quer isso dizer que os tais todos, o povo em geral, abdicam de decidir - nesse campo específico - para o que se deve usar o seu dinheiro. Quem decide, nesse caso? Quem controla cada um dos setores que beneficiam desse 'cheque em branco'? Esses setores organizam-se de forma, não por acaso, pouco democrática, afetados por pequenos mas arbitrários e ditatoriais controlos por parte de alguns que se tornam, graças a isso, 'estrelas' e, como 'estrelas', iluminam os rumos do dinheiro. Voltemos a um caso, não somente episódico, mas sintomático: o do mesmo Chomsky. 

Não por acaso, os seus discípulos e discípulas na academia foram passo a passo eliminando todas as correntes linguísticas não-chomskyanas e recorrendo aos piores argumentos: acusando-as de 'atrasadas', 'exóticas', 'erradas' (incluindo moralmente). Um dos divergentes foi um pesquisador que descobriu uma língua exótica, na Amazónia, que não possui um dos 'universais' da linguagem postulados por Chomsky. Foi perseguido academicamente nos EUA e, pela correia de transmissão imperialista que também domina a esquerda brasileira, ele e seus colaboradores foram perseguidos nas universidades brasileiras. Abafados, silenciados, des-contratados. Entretanto, cada vez se torna mais evidente que: 1) os 'universais' da linguagem podem não ser necessários ao funcionamento da linguagem, pelo que não serão caraterísticos de todos os seres humanos; 2) a fundamentação da sua existência não precisa nem do inatismo (isso o próprio Chomsky acabou reconhecendo, refazendo a sua teoria nesse ponto particular e 'exógeno' a ela), nem de nenhuma outra forma (que não a inata) de uma 'gramática universal'. O tendencialmente universal - e sublinho que tendencialmente - não é nenhuma gramática da língua ou da linguagem, são as estruturações percetivas e a articulação entre elas e o funcionamento cerebral, sendo que os dois (estruturações percetivas e cérebro) se formam e crescem juntos, constituindo um só, que por necessidade analítica separamos momentaneamente, como os médicos separam momentaneamente um órgão para curá-lo, sem, no entanto, esquecerem que ele nunca funciona sozinho. 

Ora, perante a verdadeira ditadura universitária chomskyana, ou da gramática generativa, "o poder" e "o Estado" não se devem pronunciar? Nós, que pagamos todos impostos e temos as mais diversas opiniões (incluindo sobre a gramática generativa), perdemos o direito de decidir sobre se o nosso dinheiro serve ou não para eliminar doutrinas e metodologias académicas, reduzindo-as a uma só? E o senhor Chomsky, pelos vistos, não percebe que o pensamento crítico se exerce relativamente à sua teoria quando alguém a põe radicalmente em causa fundado numa investigação própria e pertinente? E que tem, mais que o direito, o dever de exercer o pensamento crítico também sobre as teses chomskyanas?

Por outro lado, os que se apropriaram da expressão 'pensamento crítico' para reduzi-la à sua estratégia político-partidária, foram eles mesmos que impuseram uma visão política e partidária às universidades que dominaram. Fizeram-no porque, na velha linha marxista, para eles o pensamento que não tivesse a pretensão de transformar era inútil, preguiçoso, indolente, burguês, alienante, etc etc. E, se o pensamento e a ciência deviam transformar, em que sentido se daria tal transformação? Num sentido muito particular, definido pelo velho marxismo, o da revolução socialista e da sociedade sem classes. 

Então, foram eles mesmos que propuseram que, por exemplo, se criassem Centros, Grupos, Institutos e Faculdades cujo único fim seria o de analisar as sociedades de forma a conduzi-las à dita 'transformação' no sentido de uma sociedade igualitária, sem classes, e socialista ou comunista. Quando correntes de pensamento divergentes reclamam dessa verdadeira ditadura e apontam falhas graves no financiamento do 'saber' pelos poderes públicos (ou seja: pelo dinheiro comum, que não é distribuído por igual por todas as correntes críticas), os mesmos grupos que defendem que a ciência é e deve ser, obrigatoriamente, política e partidária, vêm repetir o velho chavão de que "o poder" (dos outros) não deve interferir nas universidades (deles). Mas o povo não decide o que quer? 

O poder, exercido através de representantes eleitos em liberdade, tem a obrigação de clarificar os critérios para a distribuição dos dinheiros públicos também no campo do 'saber'. Não por fulanismos e casos episódicos, mas por princípios e critérios, incluindo financeiros, económicos, de gestão, embora levando em conta que gerir o bem público não é o mesmo que gerir uma empresa particular. Princípios e critérios que devem ser aprovados e fiscalizados publicamente. Por exemplo, definir as percentagens que suportam cada ramo científico (quanto para medicina? quanto para física? para ciências humanas?). Não definir para a eternidade, mas a cada legislatura, por exemplo, ou a cada 10 anos, por exemplo também. 

O poder, exercido através de representantes eleitos em liberdade, pode e deve determinar que haja diversidade de opinião sobre qualquer tema que seja dentro das universidades e que não haja nenhum campo de investigação no qual trabalhem todos com a mesma metodologia e segundo as mesmas hipóteses teóricas. 

É cínico e próprio de trapalhões mal-intencionados argumentar que "o poder" não deve interferir 'na ciência', portanto, 'na ciência', quem conseguir o controlo, seja como for, manda como quiser, impunemente, e determina que dinheiros lhe serão dados. A verdade é que o dinheiro não é da ciência - mesmo quando ela o gera. A verdade é que a ciência nunca avançou na monologia, na mesmice, sob controlo ideológico - teve, em alguns casos, avanços particulares, parciais, dentro de um setor de uma teoria e de uma metodologia. Isso é pouco, muito pouco para quem pretende estudar a verdade, ou seja, aquilo que nos guia para a ação, aquilo que da realidade percebemos como interlocutores. 



13.4.23

Verdade e liberdade

 

Onde não há liberdade não há verdade

12.10.22

Comunismo, em 1873 - definição

 "Systema de uma seita socialista, que pretende fazer prevalecer a comunidade dos bens, isto é, a abolição da propriedade individual e a entrega de todo o haver social, nas mãos do Estado, que fará trabalhar, e distribuirá os produtos do trabalho pelos cidadãos."

Grande Dicionário Português ou tesouro da língua portuguesa, feito sobre o manuscrito original. "Inteiramente revisto e consideravelmente aumentado". Escrito por Fr. Domingos Vieira, "dos Eremitas Calçados de Santo Agostinho". A citação consta do vol. 2 (C-D), de 1873 (Ernesto Chardron ; Bartholomeu H. de Moraes), p. 321.


4.10.22

Um dos piores presidentes da História do Brasil

 Com uma ampla maioria de direita confirmada, mesmo que internamente contraditória e desorganizada, com vários eleitos de direita contra Bolsonaro sendo eleitos tanto quanto os direitistas que ainda o apoiam, depois de gastar rios de dinheiro público para angariar apoios na Câmara e no Senado, mesmo depois de gastar rios de dinheiro público reforçando subsídios sociais provisórios para enganar os pobres, Bolsonaro perdeu o primeiro turno por quase 5% para Lula, num combate entre dois ex-presidiários que se acusam de sê-lo e dois presidentes corruptores ativíssimos. 

Note-se que, no Brasil como nos EUA, é raro um presidente em exercício perder eleições para renovação do mandato. 

Para não perder por mais, Bolsonaro teve de adotar, agora e ao longo do mandato, medidas e manhas que publica e acerbamente criticava para se eleger a primeira vez. As conclusões a tirar, seja qual for o resultado do segundo turno (numa eleição decidida por anticorpos), as conclusões a tirar evidenciam-se: 

1) A vaga de direita no Brasil é de direita mais do que bolsonarista, por isso a direita venceu as eleições no primeiro turno em que o presidente direitista perdeu.  

2) Este presidente cometeu dos piores erros da história da república brasileira, mostrando-se despreparado para o cargo e sobrevivendo por artimanhas retóricas e esmolas. 

Uma maioria parlamentar de direita e um presidente de esquerda limitado por ela se desenham como possível e equilibrada solução para o fragmentarismo político brasileiro. Solução provisória, sem dúvida. 

Quanto ao PSDB, cometendo erros sobre erros, está a pagar caro pela perda de coerência e de estratégia. Tornou-se um mero partido de burguesinhos e patricinhas, muito habilidosos para as intrigas caseiras e que se derretem no calor das ruas. 



16.9.22

Comunidades imaginadas e desculpas imaginárias

Sofismático o recurso constante ao conceito de «comunidade imaginada» para defender que os povos e os Estados nacionais têm de pedir desculpas por isto ou por aquilo. Coloca-nos vários desafios esse recurso: 

1) Todos os membros da comunidade também têm de se vangloriar (em conjunto) pelo que imaginam ser glorioso no passado da sua nação?

2) A comunidade imaginada hoje é o mesmo que a comunidade imaginada ontem, sendo por isso corresponsáveis? 

3) A comunidade imaginada hoje imagina-se com todo esse passado ou imagina-se com todo o seu presente e fragmentos escolhidos do passado? 

4) A comunidade imaginada imagina-se sob alguma forma de animismo que implique os espíritos dos antepassados nas mentes dos vivos? 

5) Finalmente: a comunidade viva é diversa, mesmo contraditória, como também foi no passado. Deve-se, portanto, concluir que, no presente, a comunidade nacional de um dado país se imagina de forma plural e contraditória. Conclui-se, nesse caso, que não há nenhuma comunidade imaginada, no singular, há vários segmentos sociais imaginando uma comunidade nacional que é diferente da que imaginam os outros grupos. 

Supor que, em nome de uma comunidade imaginada, se deve pedir desculpas, ou nos devemos vangloriar (o mesmo princípio justifica as duas atitudes), pelo passado de uma nação é supor que essa comunidade se imagina da forma e com o perfil com que eu e os meus correligionários a imaginamos. Equivale, portanto, a obrigar o todo a reagir de acordo com o que um setor particular pensa desse todo, ou de como ele se imagina, sem que se pergunte ao conjunto o que pensa do assunto e das interpretações dos vários grupos. Ora a comunidade real, tarde ou cedo, se encarrega de nos mostrar que estamos a imaginá-la abusivamente. É desta cegueira que, em parte, resulta o sentimento de muitos povos hoje que, em percentagem significativa, não se revêm numa atitude política tomada em seu nome sem que se lhes perguntasse nada sobre o assunto - não sendo, porém, solidários com nenhum massacre, que vários deles combateram, denunciaram e tentaram evitar, imaginando assim outra comunidade, a que se orgulha de ter combatido o regime que massacrou e colonizou. Com tais combates é que se redime a História, não com sofísticos pedidos de desculpa.

Transpondo a polémica para um país concreto e não previsto nessas discussões, imagine-se como aplicar o conceito aos ruandeses - e não se esqueçam de lhes perguntarem o que pensam, no seu conjunto e nas suas contraditórias imaginações de nação.


(esta anotação foi suscitada pela intervenção crítica de António Guerreiro, no supl. Ípsilon do jornal Público de 16-9-2022, sobre o texto polémico de Pacheco Pereira relativo a uma hipotética obrigação moral e política de pedir desculpas pelo massacre de Wiriamu)