Entre polémicas, despedimentos, negócios mais ou menos sigilosos e um congresso, jornalistas do Diário de Notícias fizeram um caderno chamado "DN em luta. 159 anos na vida de Portugal". Como também se vê por esse caderno, e por artigo do diretor José Júdice (rejeitado pelo Conselho de Redação em outubro), não é a primeira vez que o jornal se encontra em 'maus lençóis', nem os jornalistas com salários em atraso.
A recorrência do facto não justifica o atraso nos salários, contra o qual (e os despedimentos) os jornalistas reagem com toda a razão. Torna-se ainda mais pertinente essa luta quanto, como dizem no seu comunicado de 19.1.2024, o
presidente da Comissão Executiva, José Paulo Fafe, que assumidamente se recusou a pagar salários por estar em litígio, não com os trabalhadores do grupo, mas sim com outro acionista e com a ERC.
O que me traz aqui é o caderno histórico referido e suas imprecisões, ou lacunas, algumas delas sintomáticas. As vítimas do processo - os subscritores do comunicado - tinham vantagem em mencionar, por exemplo, os ganhos com publicidade na edição on-line, nas várias modalidades. Mas ocultam-nos. Porquê?
Entre esta e outras, há uma grave omissão. No historial, refere-se assim o ano de
1975 - José Saramago, mais tarde prémio Nobel da Literatura, integra a direção do DN, como diretor-adjunto de Luís de Barros, na época conturbada após a revolução do 25 de abril de 1974. Essa direção seria afastada após os acontecimentos político-militares de 25 de Novembro de 1975 e o Diário de Notícias esteve suspenso durante um mês.
Estranho, quando se trata de despedimentos, não referirem os desse ano, despedimentos exclusivamente motivados por discriminação ideológica e partidária.
Em outro historial, este centrado no período em causa, Pedro Marques Gomes diz
O período em que o jornal é dirigido pela dupla Barros/Saramago será, assim, marcado por inúmeras polémicas e manifestações públicas de discordância em relação ao seu conteúdo noticioso, sendo um dos casos mais mediáticos o do afastamento de 24 jornalistas na sequência da divulgação de um documento, no qual estes questionam a orientação do DN.
Como também se menciona aí, depois do 25 de novembro, foram despedidos mais 14 jornalistas, comprometidos com a quebra de imparcialidade e com a disciplina partidária impostas ao jornal por uma parte da redação e pela direção gonçalvista. E como também se vê pelo artigo do novo diretor do DN, José Júdice, as soluções apontadas passavam por subvenções estatais a jornais estatais, soluções nas quais a maioria do eleitorado (logo, dos contribuintes), como se viu nas eleições, não se revia nem se reviu.
Também nesses anos, a seguir ao 25 de abril em Portugal, as polémicas em torno do jornalismo parcial, partidário, controlado no geral por células e jornalistas afetos ao PCP, eram tão vivas quanto a própria política partidária. Pesquisas estatísticas foram feitas, não só relativas ao número de menções a políticos afetos ao PCP e ao PREC e à oposição, mas também relativas ao tipo de menção (negativa ou positiva) e são claros os resultados: a esmagadora maioria delas era positiva e relativa aos protagonistas do PREC e do PCP; uma absoluta minoria era relativa aos da oposição, da qual apenas se destacava Mário Soares (o último que faltava abater) e na quase totalidade essas eram negativas.
Há perguntas que imediatamente nos ocorrem, pese embora a justiça da luta pelo pagamento de salários e contra mais razias na redação.
1) Ocultar esses despedimentos e a razão de ser deles, em que ajuda à credibilidade dos jornalistas que subscrevem o historial?
2) Ocultar os ganhos e as mudanças e a capacidade de adaptação da redação aos novos meios de comunicação (genericamente on-line, em linha), ajuda os mesmos jornalistas?
3) Em que medida a direção nomeada pelos proprietários de um jornal privado deve ser rejeitada pelo Conselho de Redação e que peso deve ter isso na decisão dos administradores? Será justo que o Conselho de Redação pretenda vetar a direção indicada por quem investe o dinheiro ali? Uma comissão de trabalhadores é que aprova a direção de uma empresa privada nos outros negócios?
Caso similar aconteceu no Le Monde, há muitos anos. Acabaram chegando a um consenso e o Le Monde mantém-se um jornal respeitável. Faço votos para que estes jornalistas, pela sua parte, superem os resquícios de militância policial que ainda os leva a esconder informação.
Dito o que, torno a declarar: estou solidário com a greve e a luta contra o desemprego nas redações. Há vários títulos que mostram, em todo o mundo, que a reconversão para o jornalismo atual não implica, obrigatoriamente, despedimentos maciços e estas redações estão já muito reduzidas.
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