14.8.26

Depois da pausa e do eclipse

 

retorno aqui. Blogue pouco lido (comparativamente com outros), porém lido com atenção por poucos, abandonei-o temporariamente. Cansei-me da cegueira geral, da imbecilidade, burrice e também cinismo com que muitos comentam a política internacional. Em geral as pessoas estão pouco informadas e é natural isso, porque têm mesmo mais o que fazer, ou seja, não é essa a sua profissão. Portanto esperam que lhes levem os legumes em papa. Mas os comentadores profissionais têm, por isso mesmo, obrigações acrescidas. Entretanto proliferaram por todos os jornais pessoas com pretensões a tal, incluídas por conveniência partidária, por servirem para mostrar uma falsa diversidade (que só atende às minorias barulhentas), ou só porque são conhecidos de. 

Passou tempo. Tudo o que estava a prever aconteceu. A democracia e a liberdade parecem aproximar-se do fim prático, ou prático e legal. O mais autêntico dos observadores políticos foi o já velho ditador da Nicarágua, que subiu ao poder e nele se instalou de pedra e cal graças à sintomática boa fé de uma esquerda que oscila entre o suicídio militante e o financiamento ilegal por regimes opressores. Aboliu as eleições e, nesse ato, provou-nos, até pela ausência de reações importantes, que as eleições caíram para fora da bolsa de valores. Em muitos países eclipsou-se, falando-se em eleições ou proibindo-as, eclipsou-se a democracia, proibiu-se a pouca liberdade que circulava pelas ruas. Em outros nunca existiu verdadeiramente e, portanto, não se estranha a sua ausência. 

O mundo não virou propriamente à direita, mas virou para regimes ou sistemas autoritários, e personalizados na maioria dos casos. Entretanto, já no crepúsculo das democracias, os comentadores e muitos intelectuais que, ora ficavam calados, ora eram coniventes com o suicídio democrático da liberdade, começam agora a sair do armário para se mostrarem. Perderam o medo das minorias barulhentas e sentem-se mesmo em perigo. 

Não há unidade democrática em liberdade, isso é um contrassenso. Justifica-se a expressão quando é preciso juntar todos os que se opõem a uma ditadura, mas eles opõem-se reunidos sem deixarem de lutar pela supremacia dentro das alianças construídas arduamente e com falsidade calculada. Abrindo-se um regime ou sistema, não só à liberdade partidária mas à liberdade como substantivo, sem adjetivos, os partidos, grupos de pressão, círculos de pensadores, apostam na luta pelo poder, influência, gestão do quotidiano e das leis. E pergunta-se a todos o que acham. É uma democracia. 

Quando, numa democracia, surgem grupos que tentam forçar consensos, isso é desde logo uma contradição à própria liberdade e outro contrassenso. Um consenso é um acordo. Em liberdade, os acordos são negociados por todas as partes, ou não valem. Negociam-se para desbloquear os vários setores de atividade quando a competição, ou a pressão de alguns grupos, os consegue paralisar, ou manietar, ou limitar perigosamente e com pretensões de 'para sempre', vírgula, 'ponto final'. 

Hoje há, finalmente, cada vez mais comentadores, nos países livres, compreendendo e assumindo que os grupos de pressão dos extremos (esquerda-direita) são grupos que visam, por consensos aparentes, impor à democracia uma unidade. Em termos de retórica, se possível transformada em lei e punição, tentam impor uma unidade temática; em termos morais, valores absolutos e não discutíveis; em termos políticos, opções ilegais ou, se preferem, condenáveis. Ora, numa democracia, em regimes livres, a única opção condenável e inadmissível seria a que defendesse o fim desse regime ou sistema, como fazem tais grupos de pressão sem o confessarem, em nome dos bons princípios. Nada os distingue, nisso, das fogueiras da inquisição e dos cárceres dos sistemas totalitários. 

Pode ser que, em desespero de causa e aproveitando a liberdade que subsiste, a lucidez regresse aos comentários políticos e ajude os votantes a abrirem os olhos, desfocados pelas poeiras retóricas e pelas manobras lexicais estratégicas dos que, seja por que via for, contribuem para abolir a democracia e ilegalizar a liberdade.