21.1.25

A posse de Trump


Cada vez menos venho escrever aqui, porque não há nada de novo para dizer. 

A posse de Trump significa duas ou três coisas que já tinha mencionado:

1) A nova esquerda, ao mesmo tempo relativista e identitarista, não significa nada em termos de votos, tendo maior peso eleitoral os votos negativos que provoca do que os votos a favor dos que a procuram integrar em campanha (nem a França é exemplo, meus amigos: o sr. Mélenchon e seu grupo são largamente minoritários se somarmos todos os votos dos que não se identificam com eles, e mais ainda se descontarmos os votos que lhes vieram do frentismo, aliás momentâneo e inconsequente. Depois das elucidativas cenas de comemoração da 'vitória' em Paris, ainda perderam mais). 

2) O identitarismo de direita soma votos por mera reação ao neo-identitarismo relativista da esquerda radical, ativista e pós-moderna. Em si, é incoerente, sem espírito próprio, mera amálgama de chavões agregadores da reação à esquerda ativista, ou de outros que legitimem uma política do tipo 'salve-se quem puder' e 'o mais forte manda'. O que une o populismo de direita hoje é uma rede de interesses que pretende usurpar o Estado e a corrupção para seu desfrute exclusivo e procura, por isso, lideranças que só lhe exijam não se meter em políticas partidárias, aceitar o poder tal como se exerce. Isto se nota na Rússia, na Hungria, nas novas ditaduras militares africanas e se notou no bolsonarismo, como na aventura do Chega e de Ventura em Portugal, uma aventura uninominal que só consegue manter as pessoas unidas porque estão cansadas e desiludidas com a ineficácia, a corrupção, a tibieza e a falta de soluções dos políticos profissionais. 

3) A indiferença, insensibilidade e cobardia dos políticos democráticos, evitando denunciar o identitarismo e o relativismo da esquerda pós-moderna (e de alguma da anterior), aumentou o sentimento da população que não se revê nos partidos do arco democrático porque, justamente, o seu discurso e a sua prática não contemplam as queixas dessa larga fatia de população votante.

A posse de Trump? Que fastio! Mais um festival de mau gosto dos que animava na TV. Jogou, de novo, areia para os nossos olhos e só daqui a um tempo iremos perceber até que ponto está preso a compromissos vergonhosos que não vão tornar os EUA grandes outra vez: sairão dali com o rabinho metido entre as pernas, ainda que façam muito barulho nas redes sociais.

O jogo político interessa cada vez menos. Estamos, em todo o mundo, a um nível inferior a tal ponto que é burrice ligar a isso: o processo continuará na curva descendente e quem mexe na merda apanha-lhe o cheiro e o sabor inevitavelmente. A posse de Trump foi um passo mais na descida aos infernos, que não trouxe nada de novo, pelo contrário. 

Mas não há uma solução? Sim, há: tomar juízo, desenvolver um raciocínio crítico personalizado, realizar exercícios diários de descondicionamento.